sexta-feira, 25 de novembro de 2016

BELA JUDITE




 Naquele dia, Maninho,  soldado do tráfico de drogas ,voltava para casa, após cinco anos preso. Era  a segunda vez que fazia este tipo de retorno. Já cumprira, antes, três anos de pena. Fora encarcerado pela primeira vez aos 18 anos , retornou às celas  aos 22. Seu intervalo de liberdade, após chegar à maioridade, fora de apenas um ano.
 Mas este segundo  retorno não seria  igual. Pelo  menos ele se esforçaria para que não fosse. Poderiam ser iguais  a longa avenida por onde o transportara o ônibus ou  as escadarias, que o levariam ao alto do morro da Vila Cearense  ; mas  diferentes eram seu estado de espírito e disposição para o futuro.
A segunda temporada na cadeia tivera influência na mudança radical que pretendia operar em sua vida. Para isso contribuíra a amizade com Arcano, veterano presidiário ,cumprindo   pena de 25 anos, por uma verdadeira coleção de crimes. 
Arcano vivia o conformismo, última fase psicológica dos encarcerados de longa data. Sabedor da importância da manter a esperteza e valentia, necessárias à sobrevivência no ambiente carcerário, adquirira, entretanto, a serenidade de quem aprendeu o que, a seu ver, valia pena na vida: a  liberdade e  o amor de uma mulher.
E fora Arcano quem  convencera Maninho a mudar de comportamento para que pudesse manter seu casamento com Judite,  assunto de centenas de conversas entre os dois homens,durante  anos.  Judite, a bela Judite, como a chamava Maninho, era a razão de viver do jovem apenado, e o veterano sabia que nada o desviaria daquele foco obsessivo.
- Resolva seu problema com a Judite e tudo será  resolvido na vida -aconselhou o velho.
Mas qual era o problema de Maninho com a Judite? A rigor, nenhum. Deram-se bem todo o tempo em que puderam ficar juntos. A questão não era de relacionamento, mas de tempo de convivência. Do dia em que optaram por uma vida em comum, apenas recém-saídos da adolescência, até a data da primeira prisão dele, transcorreram apenas seis meses. Saiu da cadeia e, um ano depois, estava preso de novo. Em nove anos e meio, ficaram somente 18 meses juntos.
Arcano estava convicto de seu diagnóstico e conselho: se Maninho pretendia ter Judite para si, como companheira permanente, deveria, de fato, compartilhar a vida com ela. 
- Mulher nenhuma, em sã consciência, consegue viver como viúva de marido vivo- lembrava-lhe o velho presidiário.
Essa frase ficou martelando a cabeça de Maninho. Controlar Judite à distância era inevitável, pela razão óbvia de que, presidiário, não podia estar sempre com ela.  Isso todos os detentos faziam com suas companheiras.
Mas isso é convivência que se tenha com a mulher amada? Maninho convenceu-se de que não. Errara da primeira vez, quando achou que poderia conciliar a vida de traficante com a conjugal. Fora preso apenas seis meses depois que passaram a morar juntos. Três anos cumpridos, livre e de volta à casa, repetiu o erro, sendo preso apenas um ano depois.
Também na segunda detenção, obteve de Judite a garantia de que aguardaria seu retorno. Assegurou-se de que a mulher cumpriria a promessa pelos meios já conhecidos da vigilância externa, feita por companheiros de crime ainda soltos.
Agora, seria tudo diferente. De novo livre, deixaria definitivamente a criminalidade. Arranjaria um emprego. Comunicara sua decisão a Arcano, que a aprovou, assegurando-lhe que era isso que sempre pretendia dele.  E aconselhou-o a se mudar, ir para outra cidade ou até outro estado pois, permanecendo na comunidade, seria sempre assediado pelos antigos cúmplices, impedindo-lhe que mantivesse, em paz, uma vida honesta.
- Fazendo tudo  isso, terá as duas coisas mais importantes para o homem:  liberdade e o amor da mulher amada.
Tudo isso passava pela cabeça de Maninho,enquanto ia para a casa da irmã de Judite,com quem ela  voltara  a morar, depois que ele fora preso.Inácia era casada, tinha um filho e Judite residia com ela quando a conheceu. Acácia nunca lhe demonstrara muita afeição ( e ele entendia os motivos), mas nunca lhe fora hostil. Davam-se bem. Baixinha e com tendência para engordar, era, fisicamente, o oposto da irmã.
A beleza de Judite,que tanto  fascinava Maninho,  não era em nada semelhante às das demais jovens da comunidade, mesmo as mais bonitas.Não era feita de exuberâncias de seios, coxas e bundas, tampouco de roupas coloridas, justas, curtas;  nem de cabelos coloridos e faces idem. Magra, sem ser esquálida; tinha altura mediana , cabelos na cor castanho ( a mesma dos olhos), lisos e caídos naturalmente, em cachos, sobre os ombros. O rosto, de linhas suaves, lembrava, a Maninho, os daquelas gravuras de santas que via, quando garoto, nas revistas religiosas de sua avó. Católica fervorosa,  a mulher o criara, desde que fora abandonado, ainda bebê,  pela mãe, solteira.
Judite falava baixo, jamais dizia palavrões e seus gestos eram suaves. Amigos mais próximos, aqueles de quem Maninho tolerava algumas brincadeiras, referiam-se a ela como a “ Irmã Judite”.
- Como é que uma mulher dessas foi gostar de um perdido na vida como você? dizia-lhe, sempre, Arcano, que a conhecia das visitas semanais ao presídio.
 Após a decisão de mudar de vida, que não comunicara à mulher,por achar que ela não acreditaria, determinara, também, que não mais o visitasse. Na próxima vez em que se encontrassem, seria fora do presídio. Não a obrigaria mais a ir àquele ambiente desagradável.
No dia em que fora solto, transcorrera mais de um ano após a última vez em que a vira,  o que aumentava mais ainda sua ansiedade pelo reencontro. Não avisou previamente  a hora de  sua chegada . Por isso, Acácia  mostrou  a surpresa ao vê-lo á porta.
- Nossa! É você?
- Com todos os ossos!
Sorria, um sorriso que não aliviava a tensão interior.
- Sua irmã está?
- Claro. Entra. Senta. Vou chamá-la.
Sentou. Na ponta do sofá, mãos cruzadas entre as pernas,  o que sentia agora assemelhava-se ao que sentira mais de uma década atrás,naquela mesma sala, quando fora propor a Judite que fossem morar juntos: um misto de nervosismo,ansiedade e alegria contida.
 Então entrou na sala a mulher. Sim, era Judite, claro,mas não era Judite. Não aquela gorducha, de cabelos opacos,amarrados em rabo-de-cavalo, olhar medroso, mãos para trás, como que algemadas. Não aquela mulher que, ao esboçar um sorriso, mostrou a ausência de um dente frontal superior.
- Não esperava que você chegasse agora, só de noite.
Claro, sua voz era a mesma, mas tinha algo de estalado e insegurança na entonação. Onde estava a suavidade ,que antes ele sentia  nos ouvidos  como se fosse carícia?
Vestia um conjunto de moletom, desbotado, calça ligeiramente apertada,  realçando, principalmente na cintura, gorduras  a mais.
- Livre de novo. E dessa vez, juro: nunca mais volto para aquele inferno. 
A voz lhe saíra sem convicção; priorizara mais comunicar a satisfação com a reconquista da liberdade do que comemorar o  reencontro com a mulher.Abraçou-a; sentiu que ela aconchegou-se a ele, mas não a estreitou fortemente, como tanto sonhou que faria quando a encontrasse . Omitiu também o beijo, que ela tampouco cobrou.
-E você, como tem passado?  
A pergunta soou burocrática, depois de acomodaram-se no sofá .  Acácia,  após anunciar que iria fazer um café, retirou-se da sala.
- Vou levando. As coisas não têm sido muito fáceis, pois meu cunhado está desempregado faz tempo e eu peguei umas faxinas em casas do bairro para ajudar nas despesas.E este ano inteiro sem ver você  só tornou as coisas mais sofridas.
Enquanto ela continuava a falar sobre sua rotina sofrida, bem que ele gostaria de prestar atenção no relato  , consolá-la , revelar-lhe sua disposição de mudar de conduta,  acenar-lhe com melhores dias.. Não conseguia. Difícil afastar a sensação de que não era Judite quem se dirigia a ele . Pelo menos, não a bela Judite. 
- Olha, preciso ir agora. Vim direto do presídio para cá e lembrei que preciso resolver uns assuntos. Depois volto para a gente conversar mais e acertar melhor as coisas. Avisa à Acácia que o café fica para outro dia.
Falava  gaguejando, ao mesmo tempo em que se levantava. Judite permaneceu sentada enquanto ele dirigia-se à porta, abriu-a e saia.

Quinze dias passaram, sem notícias dele,  até que Acácia chegasse com a novidade:
- Encontrei Maninho hoje, no mercado. Não o tinha visto, ele que me chamou. E conversamos sobre a situação de vocês dois.
Judite aproximou-se, lentamente, mas ansiosa. Desde aquele último reencontro após a saída dele da prisão,  nunca mais vira Maninho,ou soubera qualquer notícia dele. Estes quinze dias de silêncio foram mais angustiantes do que o ano todo em que ficaram sem qualquer contato, devido à proibição dele de que o fosse ver na cadeia.
Estes novos tempos, ela sabia, eram de definição. O clima estranho do último encontro; o comportamento de Maninho no curto diálogo , a maneira como saíra da casa, a falta de notícias, nada disso passou-lhe despercebido. Principalmente pelo contraste entre aquele dia e o dia em que ele chegara em casa, após cumprir sua primeira pena de prisão, anos atrás.Maninho, então, a abraçara  e beijara apaixonadamente, demonstrara em gestos e palavras o quanto ficara feliz em voltar a vê-la, em voltar a conviver com ela.
A irmã interrompeu suas reflexões.
- Ele disse que não tem aparecido, nem dado notícias, porque tinha muitas coisas para fazer. Pensou que ia resolver os problemas pendentes em poucos dias, mas não deu. Depois, à medida em que o tempo foi passando, ele  começou a se sentir constrangido de vir aqui pessoalmente dizer o que ele pretendia dizer. Então, resolveu transmitir por mim.
Judite abandonou a atitude passiva recostada no sofá e reclinou-se em direção à irmã, sem a menor preocupação em esconder a ansiedade.
- E o que ele disse?
- Que não vai mais viver com você. Pensou bem e , como acha que só lhe trouxe problemas este tempo todo, não vai mais atrapalhar sua vida. Vai embora. Viaja na segunda-feira. Deseja-lhe muita sorte e tem certeza de que você terá no futuro a felicidade  que  merece.
- Então , resumindo, ele acabou nosso casamento?
- E bem acabado , minha irmã. Depois que nos despedimos, atravessou a rua e sabe quem veio ao encontro dele? A Dileusa. Parece que a morena conseguiu finalmente o que sempre desejou, pois os dois subiram de mãos dadas, para os lados da pracinha.  Ele não vai embora sozinho, pode crer.
Judite, então, abandonou a postura de expectativa. Recostou-se  no sofá, pernas e braços estendidos, relaxada.
- Bem que lhe falei que isso iria acontecer  quando, um ano atrás, você parou de se cuidar, começou a engordar, não tratou mais dos cabelos, das unhas, não colocou mais a prótese dentária. Virou essa coisa feia que está aí.
Acácia sempre a alertara sobre a obsessão de Maninho por sua beleza, uma obsessão que poderia levar a uma tragédia se ela resolvesse romper com ele.
Mas agora, Maninho perdera o interesse por ela. Significava que não mais a  controlaria, nem  a  manteria atrelada à sua vida de marginal. Acabava, finalmente,  aquela tensão permanente representada pelo medo de deixá-lo e, ao mesmo tempo, de viver com ele.
 O plano de sacrificar a própria beleza para que ele desistisse dela, e não o contrário,   dera certo e era isso que as duas irmãs comemoravam, agora, abraçadas, silenciosamente, no meio da sala.




   

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

INVISÍVEL





Se você tivesse vivido o que ele viveu, talvez fizesse  o que ele  fez. Comecemos dizendo que ele saiu  da prisão por volta de  seis horas desta manhã. Mania de madrugada da polícia, pois, quando o prenderam, 15 dias atrás, o sol também mal havia surgido.
Pelo menos chegará  em casa sem que  ninguém  o veja. Nem seus pais que, desde o dia em que o encarceraram, saíram do bairro e foram morar com  parentes, em uma região mais distante da cidade.
Sabe como entrar na casa, abrindo aquela janelinha da área de serviço .  Tomará um banho e trocará de roupa.
O que  viveu para justificar o que  fez?
Sua família é composta pelos pais, irmã e  irmão. O irmão tem 26 anos, 10 a mais do que ele; a irmã , 12.
O irmão  não mora com eles . Vive e trabalha  em uma cidade vizinha, uns 20 quilômetros dali. Mas, para a mãe, é como se morasse em outro país. Vive suspirando de saudade  e, quando ele vem para casa, em alguma folga, é como se chegasse o  rei.
A irmã é  a jóia da família. Muito mimada, principalmente pelo  pai.Presentinhos, carinhos; quando  fica doente, uma gripe que seja, é um Deus  nos acuda.
Não se pode dizer que o tratam mal. Mas vive  sempre com a impressão de que  todo o respeito da família vai para o mais velho,todo o carinho para a mais nova e , para ele , a sobra.
 O pai trabalha o dia todo , a mãe vive atarefada em casa de manhã à noite, e ele sente-se sempre   secundário quando o assunto é atenção para os filhos.   Quem é filho do meio sabe como funciona  isso.
Se  há alguma comemoração  em casa, Natal, aniversário,essas coisas,  e se recebem  o pessoal da família, o que acontece? Elogios à beleza , às boas notas , à boa educação da irmã; demonstrações  de saudade, orgulho pelo trabalho e  responsabilidade do  irmão; quanto a ele, vai bem, obrigado.
Quando  era mais novo, ainda procurava atrair a atenção, mas agora não .  Nestas ocasiões, quando possível, escapa para o quintal ou para seu quarto ( sim,  um quarto só dele, o que dividia antes com o irmão).
Ano passado,  ,  aniversário  da irmã,  estava no quarto, chegou a hora dos  parabéns e esqueceram de chamá-lo. Teve a impressão de que , se  não tivesse ido para a sala,  alertado pela cantoria e  palmas, esqueceriam,também, de seu pedaço de bolo.
É por causa de tudo isso que é  calado e esquivo . Inclusive na escola. Prefere ficar no seu canto;  quanto menos prestarem atenção nele, melhor. Quando estava no primeiro grau, ficava  no fundo da sala e, como era um dos mais  baixos da classe, os professores viviam ordenando que se sentasse na fila da frente.
Sua vida tem sido de casa para a escola e da escola para casa, e mais alguma coisa que não possa evitar, como visitas a parentes ,ou eventos estudantis.Você pode crer que, se ele tivesse que manifestar  desejos para um gênio da lâmpada, pediria primeiro  para ser invisível. Por enquanto, já se sente  meio invisível,  escondendo-se ou ninguém  prestando  muita atenção nele.
Então, aconteceu de conhecer a Cenira. Foi no começo do  ano; ela, nova na cidade ,  passou a fazer parte da mesma classe escolar.É de família turca e tem aquele jeito meio diferente das mulheres de seu país, os cabelos grandes e negros, os olhos também e bem redondos. Muito simpática, sem ser exibida, logo fez amizades, conversa e brinca  com todo mundo.  Não é preciso de dizer que, no caso dele, não vai além dos cumprimentos. “ Oi!”, “ Alô!”, “ Tchau”!
É bem verdade que ele não dá muita chance para maiores efusões. Sempre no canto, sempre sozinho e  calado, torna difícil  aproximações . Também nunca fez muita questão disso.  Mas com Cenira é diferente. Ela acendeu  sabe Deus, que  chama dentro dele, fazendo-o suspirar por algo mais que “ oi”, “ alô” e “ tchau”.
Mas por que ela se aproximaria dele,  tendo garotos muito mais interessantes com  quem ter amizades? O filho do diretor da escola, por exemplo;  o sobrinho do prefeito , ou o garoto que toca violão e canta?
Deve existir alguma coisa que o faça ser notado também. E foi da incessante busca a uma resposta para tal questão que surgiu o plano.   Que, até agora, no momento em que se dirige para casa, após aquela temporada na  prisão,  transcorre conforme o previsto.

É preciso apressar o passo e  chegar nas residência antes das seis,sem que ninguém na rua o veja. Poderá tomar um banho,descansar  e, perto do maior intervalo entre as aulas, fazer a grande   reaparição na escola .Será memorável, acredita, porque, depois de sua façanha,  já não é mais invisível.É alguém com quem todo mundo vai querer conversar, fazer perguntas.Aquelas meninas que quase nunca prestam atenção nele e vivem suspirando pelos bacanas da classe; os professores; até mesmo, e principalmente , Cenira.
O que ele fez não é algo que se faça de uma hora para outra. Exigiu inteligência , paciência e planejamento. Tudo pensado, em detalhes, coisa  não tão difícil para quem na vida sempre teve  pouco com que dividir sua atenção.
A idéia surgiu com a notícia  de que 10 brasileiros haviam sido presos acusados de fazerem parte do Estado Islâmico, o grupo terrorista que quer transformar o mundo em um califado . A Polícia Federal  os descobriu monitorando as redes sociais.Os investigadores tornaram-se mais atentos e precavidos com a proximidade das Olimpíadas do Rio de Janeiro por causa da  possibilidade de brasileiros, recrutados pela grupo, realizarem   massacres durante os jogos . A polícia agiu rápido: identificou trocas de mensagens suspeitas e prendeu os seus autores. 
Estado islâmico nunca foi um assunto que lhe interessou muito, nem mesmo a possibilidade do grupo ter representantes no Brasil causa-lhe   espanto. O que chamou sua atenção,mesmo, foi a fama súbita dos brasileiros presos. Era gente comum, absolutamente anônima e,de repente,tiveram seus nomes e fotos estampadas nos programas  de TV,  jornais e  revistas de todo o mundo.Três deles não eram conhecidos, antes, nem por seus vizinhos.
Claro que nem de longe passou-lhe pela cabeça virar terrorista para deixar de ser invisível. Não quer fazer mal a ninguém. Gostaria de usufruir unicamente da fama que um episódio destes pode dar a seus protagonistas.  Mas, como ganhar notoriedade como  jovem terrorista brasileiro e  internacional, sem matar ninguém, explodir nada, cair na clandestinidade e, menos ainda, ser morto ou preso pelo resto da vida??
Sua inteligência, aguçada por horas e horas recluso  no quarto, diante do computador, trouxe-lhe, rápida, a resposta. Se as investigações estavam sendo feitas na internet, principalmente nas redes sociais,  seria ali o palco de sua atuação.
Três meses depois, seis horas de certa manhã, o primeiro sinal de que o plano daria certo:homens estranhos apresentaram-se à sua casa como agentes da Polícia Federal. 
Assustou-se um pouco com o aparato da captura.Ante o olhar atônito dos pais,  agentes mal encarados e silenciosos algemaram-no e conduziram-no , sem truculência, mas de maneira firme, para um camburão.Minutos depois , o veículo, escoltado por outro, logo atrás, entrava no subsolo de um prédio antigo . Saíram do carro, entraram  em um elevador.  Silêncio  quebrado apenas pelos ruídos de portas fechando e abrindo. Deixaram-no só em uma cela.
 Pôde, então, analisar melhor a situação.Logo , os jornais noticiariam a prisão de mais um terrorista brasileiro.Sua foto e  nome, sem dúvida, já estariam rolando nas redes sociais. O mundo, então,  tomaria conhecimento de sua existência. Não que o mundo lhe importasse. Deliciava-se em imaginar as reações entre seus colegas de escola.Os bacanas estariam escondendo sua inveja sob observações sarcásticas a seu respeito, do tipo:“ Sempre desconfiei daquele maluco”.
Mas haveria, também, reações de medo, talvez até de  alguma histeria: “ Meu Deus,um  terrorista entre nós!” exclamar-se-ia na sala dos professores.
E quem poderia negar  o fascínio entre as meninas? “ O esquisitão, quem diria, heim”?

Tiraram-no da cela no outro dia, bem cedo ( a mania policial da madrugada mostrava-lhe seus primeiros sinais), para o primeiro interrogatório. Não sentia mêdo, afora inusitada sensação de  desamparo ao  percorrer longos, escuros e úmidos corredores, até uma sala pequena, mas não  menos escura e úmida.  A meticulosidade de seu plano lhe garantiria  o controle da situação.

terça-feira, 5 de julho de 2016

TEATRO DE COINCIDÊNCIAS





Não se viam há cinco anos, desde os tempos da faculdade e, agora, encontraram-se naquela lanchonete no final do expediente.
-  Como estão as coisas? Quais as novidades?]
- Estou aí, na luta. E você?
E começaram a falar dos rumos que suas vidas tomaram, após se formarem; lembraram coisas e pessoas  da época estudantil, riram; emocionaram-se.
- Incrível coincidência encontrá-lo.  É a primeira vez que entro neste bar.
- De vez em quando passo por aqui, para tomar um café, comer alguma coisa rápida.
- Mesmo assim , acho uma tremenda  coincidência.
- Se você acha isso coincidência, o que dizer, então dos ganhadores da megasena,que acertam aqueles seis números, quando as chances de isso ocorrer são de uma em 52 milhões?
-  Pensando assim,você tem razão.
- É por isso que não me surpreendo muito com as coincidências da vida. Presenciei uma aparentemente incrível no dia do fumacê.   
- Dia do fumacê?
- É. Quando aquela nuvem tóxica cobriu todo o centro comercial. Lembra?
-  É mesmo. Parecia coisa de ficção científica. Só faltou aparecerem zumbis canibais. Felizmente, eu estava na orla.
- Pois eu estava aqui no centro,  olho do furacão.Mal tive tempo de me abrigar, antes que a fumaça me envolvesse.Em menos de dez minutos, tudo ficou coberto pela neblina.
- E a coisa era mesmo tão perigosa assim?
-  Ninguém morreu, mas quem esteve exposto à nuvem ficou com olhos ardendo, ânsia de vômito, dor de cabeça,  de barriga. Quem viu de longe, pensou que era algum incêndio, pois a fumaça começou a aparecer  pelos  lados do porto.
-  Um primo meu, que também estava no centro, disse que foi uma loucura. Em pouco tempo, tudo começou a escurecer e a correria foi geral. Meio cegos, a garganta queimando,  as pessoas  procuravam qualquer local onde se abrigar.Lojas e recepções de prédios logo ficaram lotadas e começaram a fechar as portas.
-  Eu e mais dois senhores, já idosos, tivemos sorte de entrar em uma pequena lanchonete.
- Ainda bem.
- Aí aconteceu a primeira coincidência. A lanchonete não atenderia o público naquele dia por causa de reforma no equipamento de refrigeração. Mas, justo naquele momento, a porta estava aberta pela metade porque o gerente esperava os técnicos que fariam os reparos. Por isso, eu e os dois senhores  pudemos entrar. Alertei o gerente   sobre a nuvem de fumaça e ele, imediatamente, baixou a porta.
“ Ficamos, então, nós quatro, estranhos entre si, confinados na lanchonete, que é dessas pequenas, parecendo mais um corredor. Um balcão comprido; uma fileira de mesas e cadeiras, em resumo”.
“ Pedi ao gerente para ligar a TV, a fim de  sabermos o que estava acontecendo lá fora. Se não eram apavorantes, as notícias também não tranqüilizavam  ninguém.O gás não era mortal para quem se expusesse a ele em áreas livres e por pouco tempo.Mas não estava se espalhando rapidamente devido à falta de ventos. Por isso as autoridades não sabiam quando as pessoas poderiam sair de seus abrigos. Sorte que vivemos a era do celular e  quase todo mundo pôde avisar os parentes e amigos sobre o que estava acontecendo”.
- E vocês quatro tiveram que se enturmar, mesmo sendo estanhos.
- No começo, os dois senhores ficaram calados. Até compreensível. Estavam mais preocupados em ligar para os parentes. O diálogo inicial foi entre eu e o gerente. Claro que o assunto era a nuvem tóxica..
“Procuramos notícias atualizadas na TV. Uma delas teve especial importância: a de que a fumaça tóxica foi causada pela reação química entre a água da chuva e uma substância estocada  em um contêiner no porto. A água entrou por um buraco na caixa de aço. Quando a fumaça saiu, em grandes rolos, a reação aumentou pelo contato dela com a chuva”.
“Por isso, as autoridades pediam para que as pessoas evitassem colocar lenços umedecidos na boca ou nariz; ou vedar aberturas das moradias ou lojas com panos molhados, ao contrário do que se costuma fazer   em situações semelhantes  . Para garantir melhor o cumprimento dessas  recomendações, cortou-se o abastecimento de água para toda a área coberta pela fumaça .”
- E em caso de  sede?
- Bem, no nosso caso, havia água no reservatório do prédio.Isso não seria problema.
- De qualquer maneira, se faltasse água, podiam contar com os refrigerantes da lanchonete, né?
- Não.O comerciante tinha esvaziado o refrigerador e levado todo o estoque de bebidas para casa, a fim de dar espaço para os técnicos fazerem os reparos. Mas havia em uma prateleira, em frente  do balcão, algumas garrafas de vinho tinto. Depois  de algum tempo conversando bobagens com o gerente e trocando apenas monossílabos com os dois senhores,que continuavam caladões, sentados cada um a uma mesa,  pedi uma garrafa . Convidei todos a compartilhar a bebida comigo , mas, de imediato, só o gerente concordou em beber um cálice”.
“ Uns 20 minutos depois, um dos senhores resolveu tomar um gole. O outro acompanhou-o e, passada uma hora, o conteúdo de dois litros já tinha ido embora.”
“ Os dois senhores bebiam pouco, o consumo maior era meu e do gerente Via-se que não eram pessoas acostumadas à bebida alcoólica .Logo, estavam meio vermelhos, mais agitados e com a língua solta”.
Primeiro começaram a falar sobre o acidente , apresentar  teses sobre causas e consequências.  Depois, o diálogo ficou mais pessoal. Foi quando nos apresentamos uns aos outros.
Um dos senhores, calvo e magro, era jornalista,aposentado  ; o outro, de mesma altura, porém mais forte e com cabelos completo,era engenheiro.À proporção que o tempo ia passando,talvez pela identificação inicial da idade,  passaram a ocupar a mesma mesa e conversar entre si.Tendo o gerente se afastado por uns instantes para se concentrar no seu refrigerador quebrado,fiquei só e virei  assistente e ouvinte  de um diálogo que só posso chamar de “ teatro de coincidências”. 
JORNALISTA
E pensar que eu não vinha para o centro hoje. Vim só para comprar um presente para meu neto,que faz aniversário.
ENGENHEIRO
Você é avô?Também sou.Meu neto tem quatro anos,  e o seu?
JORNALISTA
Seis. E pediu uma camisa do Santos FC de presente. O que a gente não faz por um neto, heim? Eu,corintiano, entrei em uma loja e comprei uma camisa do Santos.
ENGENHEIRO
Também sou assim. Para o neto, tudo. Dizem que sou o avô mais babão da Cidade. E olha que ele nem é meu neto biológico. É filho da minha enteada,que é filha de minha segunda mulher. 
JORNALISTA
É o meu caso.Sou casado pela segunda vez e este meu neto é filho de minha enteada.Mas tenho um neto de verdade, filho de minha filha biológica, de meu primeiro casamento.
ENGENHEIRO
Eu também.Quando me separei de minha primeira esposa, meu filho,  que na época tinha quatro anos, ficou com ela.Hoje,casado, tem um filho de três anos.Mas minha  relação maior é com meu neto “postiço”.
JORNALISTA
É o que acontece comigo.O filho de minha enteada é como se fosse meu neto de verdade. Com o outro, não tenho nenhuma convivência.
ENGENHEIRO
Não sei quanto a você,mas, no meu caso,isso acontece porque meu filho, depois de meu divórcio, nunca mais conviveu comigo. Minha ex-mulher casou de novo, saiu da cidade e o padrasto acabou me substituindo no lugar de pai.
JORNALISTA
Vivi situação parecida. Mas minha ex-mulher, depois do seu segundo casamento, continuou vivendo por aqui, mesmo. Como nossa separação foi muito conflituosa, ela criou muitas dificuldades para minha convivência com minha filha, que acabou se apegando ao padrasto.
ENGENHEIRO 
Ou seja: nós dois acabamos sendo substituídos como pais e avôs.

- Pararam de falar por  instantes, interrompidos pelo aviso de edição extra, na TV,sobre o acidente.A informação era de que os bombeiros, impossibilitados de retirar o produto químico do contêiner,decidiram jogar água nele. Procuravam, assim, acelerar a reação química e acabar com o estoque do produto, dando fim rápido à neblina tóxica..
  “A notícia não me interessou muito. Significava, apenas,que iríamos ficar por mais algum tempo confinados.O que me impressionava mesmo era o conjunto de coincidências envolvendo a vida daqueles meus dois momentâneos companheiros. Os dois estavam em seus segundos casamentos; tinham filhos das primeiras uniões. Separaram-se e casaram-se de novo com mulheres que também tinham filhos de casamentos anteriores.  Seus filhos cresceram, casaram e tiveram filhos. As enteadas, também.Em conseqüência, tanto um, como o outro, tinham filhos e netos postiços e filhos e netos biológicos.Mas relacionavam-se melhor com os netos postiços porque conviveram pouco com os filhos legítimos, após os respectivos divórcios. Estes, por sua vez, apegaram-se mais aos padrastos, que acabaram ocupando os lugares de pais e avôs.Confuso de explicar, mas nem por isso incrível, por ser história comum de dois homens unidos por acaso naquele mesmo lugar”.
“Encerrado o flash extraordinário de notícias, reataram o diálogo. Aos  vapores do vinho, somava-se, agora, como motivador de mais conversa, a descoberta de tantas coisas em comum em suas vidas.Que mais coincidências estariam por vir?”
JORNALISTA
 Nas poucas vezes em que mantive contato com minha filha, depois dela adulta, ela disse que fui omisso como pai e que o padrasto foi sua referência masculina, por isso  ela o tinha como verdadeiro pai.
ENGENHEIRO-
E você não tentou explicar as dificuldades criadas pela mãe dela  para relacionar-se normalmente com ela?
JORNALISTA
 Para falar a verdade, nem tentei muito. Acho que por um certo sentimento de culpa, por não ter lutado com mais contundência por minha filha, quando houve o divórcio e ela ainda era pequena. Sei lá. Mesmon quando já era adolescente, eu achava que não adiantaria, porque ela, a meu ver, não entenderia nada e ainda estava sobre forte influência da mãe. Acreditava que,quando  ficasse adulta, poderíamos nos entender melhor. Mas parece que a coisa desandou e, agora, ficou irreversível. Nunca tivermos essa conversa.
ENGENHEIRO
  Isso é duro. Mas, caso sirva de consolo, acho que minha situação foi pior.Porque nunca mais falei ou o vi meu filho desde que ele era pequeno. É constrangedor dizer, mas  se ele passar por aqui, agora, eu não o reconheceria. Nem ele a mim.E pelo que soube,  ele não tem o menor interesse de conhecer o pai.Como sua filha, ele considera seu verdadeiro pai  o padrasto.Como conseqüência disso tudo,também não conheço meu neto.
JORNALISTA-
Pelo menos conheço a Belina e ela a mim.
- Fez-se curto silêncio entre os dois. Do lugar em que me encontrava, no extremo do balcão, não pude ter certeza, mas parecia-me que ambos tinham os olhos marejados.O engenheiro baixou por instantes a cabeça, a mão direita na fronte, mas levantou-a rapidamente,  e, como que tendo uma lembrança súbita, perguntou, em voz alta:
ENGENHEIRO
 Belina? Você disse Belina?
JORNALISTA-
É. Belina. Este é o nome de minha filha. Foi escolhido pela minha ex-mulher.
ENGENHEIRO
 Mas este é o nome  de minha enteada.
JORNALISTA
 Vai me dizer que o nome de sua mulher é Lena?
ENGENHEIRO
 Isso mesmo!
JORNALISTA
 Este é o nome de minha ex-mulher.

- Você entende, agora, porque lhe disse que essa era uma história de incríveis coincidências?
- É mesmo. O engenheiro, então, era o padrasto da filha do jornalista. Só falta, agora, você me dizer que o jornalista era o padrasto do filho do engenheiro.
- Não. Não chegamos a tanto. Mas você há de convir que é muita coincidência, não?
- E após a revelação, o que aconteceu?
- Você não vai acreditar, mas ficaram meio catatônicos. Não sei se foi a revelação; ou efeitos do vinho, mas calaram-se e evitavam fitar-se. Cada um olhou para um lado, como se, agora, tivessem que medir as próximas palavras. Foi quando a  vinheta anunciando notícia extraordinária se fez ouvir de novo  e nossas atenções voltaram-se  para a TV. Informava-se que a fumaça havia se dispersado e as pessoas já podiam retornar às suas casas.
“ Atraído pelo diálogo entre os dois homens, eu tinha até esquecido do motivo que levaram  nós quatro a ficarmos confinados naquela lanchonete. E lamentava,  intimamente, que a conversa fosse interrompida após a importante revelação.
 Os dois homens demonstravam não querer continuá-la. Levantaram-se, fazendo menção para sair. Não esboçavam qualquer intenção de despedir-se de mim e do gerente do bar, o que,além de tudo,revelava ingratidão pela acolhida que ele nos dera.
“ Não me contive. Mesmo que me considerassem um intrometido,eu precisava  opinar sobre o que ouvira.
- Desculpem-me, mas acompanhei toda a conversa de vocês dois.Acho que, além de ter servido como desabafo, ela pode ter maior utilidade para os dois.
Viraram-se para mim, interrogações nos olhares, resumindo uma só pergunta: “ Como assim?”
-   Sua filha, senhor, jornalista, despreza-o porque o considera omisso. Ama o padrasto porque ele foi sempre presente na vida dela. Entretanto, ela não sabe que o filho do padrasto dela faz a mesma acusação ao pai. Ou seja: o senhor é um mito para sua enteada,, mas é desprezível para seu filho.
Continuaram olhando-me com  expressão de “E dai?” Continuei:
- Então,o senhor engenheiro poderia explicar à sua enteada que o pai dela fora vítima das mesmas restrições que ele. Ambos podiam até ter sua parcela de culpa- falta de brios para reivindicar direitos de pai; excesso de cuidados para não melindrar os filhos ainda pequenos- mas não podiam ser os principais responsáveis pelo afastamento deles. Essa culpa teria de ser dividida com as respectivas mães.
Calei-me e os observei-os por alguns segundos. Olhavam-me, demonstrando compreensão do que eu havia dito, mas portavam-se como se não tivessem  nenhuma energia para tomar alguma atitude a respeito. Continuei:
- E você, senhor jornalista, poderia, em contrapartida, procurar o filho do engenheiro e contar a mesma história.Fazer a comparação entre os dois casos.Mostrar que se ele foi um excelente padrasto, poderia ser, também, um excelente pai se lhes fossem dadas as oportunidades de convivência.
“ Timidamente, parecendo mais querer uma orientação do quer uma resposta, o jornalista rompeu o silêncio:
- E você acha que,nesta altura da vida, isso vai resolver alguma coisa? Vai nos tornar  amados por nossos filhos como somos amados por nossos enteados? Sermos amados por nossos netos biológicos, como somos amados por nossos netos adotados?
- Não posso dar certeza quanto a isso- respondi-  mas pelo menos seus filhos terão novas versões sobre as quais refletir, além daquela que ouviram a vida toda de suas mães.Claro que não deixarão de amar seus padrastos, mas terão a chance de retomada de um diálogo que poderá fazer com que possam abrir seus corações também para vocês.
“ O  vazamento de gás, a convivência  temporária naquele salão com desconhecidos; a revelação sobre a proximidade de suas famílias e, não mais importante, a quantidade incomum de vinho que tomaram, sem dúvida explicam a reação, pelo menos para mim inesperada, que tiveram a seguir.
ENGENHEIRO
 Obrigado.
JORNALISTA
A gente se vê por aí.
 E, lentamente, meio cambaleantes, sem mesmo olhar um para o outro, saíram do salão. Uma vez na calçada, dirigiram-se paras lados opostos. A mim restou agradecer ao gerente da lanchonete  a acolhida, tentar pagar pelo vinho consumido ( o que ele recusou) e ir embora, também.
- Será que eles voltaram a se encontrar? Que colocaram em prática suas sugestões?
-  Como saber? Mas esta cidade é pequena e qualquer dia vão tropeçar um no outro, por aí..E, sem os vapores do vinho, a conversa poderá ter  rumo diferente.
- Bem, hora de ir embora. Meu carro está na praça.
- O meu está em um estacionamento
- Sem coincidência, portanto.

- Tchau.
- Tchau.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

O QUARTO DAS COISAS QUEBRADAS






Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.
Era uma vez uma princesa. A mais linda das princesas, diziam seus contemporâneos. Não tinha olhos  azuis,nem negros, nem verdes, nem castanhos e, por isso, rezavam as crônicas, tinha o mais belo entre os olhares já vistos. Seus cabelos não eram pretos, nem louros, nem ruivos, tampouco castanhos , o que tornava-lhes a tonalidade a mais maravilhosa entre todas.
A pele , longe de ter a alvura da neve; o negrume da noite sem lua; ou a  perfeita mescla entre o  mais escuro dos abismos e o mais claro dos dias, era, por sua indefinição,  a mais agradável ao olhar e a mais desejável ao toque entre tudo o que, até então, cobrira o corpo de uma mulher.
A princesa não era boa, nem má, nem complacente,, o que a tornava  seu trato com as demais  pessoas o mais justo e agradável que se pode ter com um ser humano.Não  muito inteligente,nem inculta, tampouco de dotes  intelectuais medianos, a princesa tinha a maior das sabedorias, diziam os arautos do reino.
Era amada e admirada, portanto,não pelo que a definiria, a partir de critérios pré-estabelecidos há séculos, ,mas pela soma de todas as indefinições positivas já registradas.
A FERA
Era uma vez uma fera.Ninguém, sabia como era porque ninguém a tinha visto. Sabia-se apenas que era uma fera e que vivia no castelo da Princesa, em uma prisão que, dizia-se, jamais houvera  alguém construído até então. Apenas no castelo da princesa havia tal cadeia e era por isso que a fera era mantida ali.
Entre os que freqüentaram o castelo,contava-se, muitas foram as vítimas da fera e perguntava-se, então, por que a princesa assim o permitia? Os sábios do reino explicavam que  a princesa era a única pessoa capaz de conter a fera, mas  nem sempre ela o conseguia. Em tais circunstâncias, não era possível que a jovem sequer impedisse que o monstro atacasse mesmo pessoas a quem ela devotava afeição.
Deveriam,  então, os súditos preocupar- se com a existência da  fera, já que ,paradoxalmente, a única pessoa que tinha condições para prendê-la nem sempre podia mantê-la presa?
Os sábios tranqüilizavam-nos. Pelo que se sabia, a maior parte das vítimas vivia perto da princesa. Não que eventualmente a besta deixasse de afligir  súditos mais  distantes, contudo,  os casos foram tão esporádicos  que poucos eram os que podiam citá-los. Duvidava-se até que existissem.  Tal constatação se, por um lado tranqüilizava o reino, por outro levava à quase certeza de que estar perto da princesa era o mesmo que estar próximo do perigo.
Não  à toa , devido à isso,  a princesa era solitária. A não ser por alguns criados,  poucos se aproximavam da jovem.  E entre os que  o fizeram, dizia-se,  ninguém ficou imune ao ataque da besta.   
E por causa das investidas da fera, comentava-se, houve quem morresse; quem ficasse aleijado; quem ficasse pobre; triste ou desamparado. Ninguém,entretanto, conseguiu contato com qualquer uma das vítimas .E a explicação mais frequente era de que não  se tratava de pessoas do reino, pois estes não ousavam transpor as muralhas do castelo, conhecedoras  do perigo que encerravam.Seriam, em sua maioria, nobres estrangeiros, pretendentes à mão da princesa e ainda ignorantes quanto às histórias de medo.
E o povo lamentava que tão boa, tão linda e tão inteligente princesa fosse condenada à solidão por algo que só ela podia abrigar, mas que não podia conter.
Por que a fera não atacava a princesa? Foi para obter resposta a tal pergunta e para evitar que esse ataque um dia pudesse ocorrer que surgiu...
O PRÍNCIPE
Era um príncipe como todos os príncipes, belo e heróico. Vinha de outro reino e passava  apenas de viagem. Não ficou, a exemplo de tantos viajantes que por ali erravam, no desconhecimento da história da princesa e da fera. E, como todo príncipe heróico, não se conformou em saber que os súditos eram indiferentes ao destino da jovem . Não porque não a amassem ou admirassem, mas porque entendiam que uma princesa é  invulnerável a  perigos. Ou talvez por acharem que   sempre surgem príncipes  dispostos a salvá-las . Como este, fazendo-lhes perguntas .
Como todo príncipe heróico, cedeu à compulsão de resgatá-la a seus possível  algoz. Apresentou-se no castelo  e ofereceu seus serviços. Livrá-la-ia da fera  que a isolava do mundo e das pessoas e poderia ceifar-lhe a própria vida.
 A princesa sorriu  e, ao príncipe, pareceu ter nascido o  sol entre seus lábios.
“Fera!”- admirou-se ela. Ora, isso era apenas uma dessas muitas histórias que surgem da ignorância dos súditos sobre a vida de seus senhores. Como príncipe, sem dúvida, ele sabia como essas coisas acontecem e, depois, saem do controle, transformando-se em lendas, mitos, que  tudo tentam explicar.
“Mas e as pessoas que entraram no castelo e depois não apareceram mais” ?  - indagou  o príncipe. E a princesa, o sol de novo nos lábios, explicou que não houve nenhum desaparecimento. Os visitantes simplesmente vieram e foram embora, a maioria sem ser vista, já que era gente nobre, que não vive se expondo. Sim, algumas deles eram pretendentes à sua mão e houve até  arremedos de romances, mas que pouco significaram.
E ao lhe dar as explicações, a princesa, ao mesmo tempo em que procurava ,com os lábios,tranqüilizá-lo  e convencê-lo da desnecessidade de qualquer ato heróico,  com o olhar e o sorriso luminoso transmitia-lhe mensagens de sedução.
Apaixonaram-se.
UMA NOITE
As primeiras semanas foram idílicas, como não poderia deixar de ser entre um príncipe e uma princesa sob o teto de um mesmo castelo.
Mas então houve aquela noite. Aquela em que o príncipe, acordando altas horas, não viu a princesa a seu lado, no leito. Quase ao mesmo tempo, ouviu, vindo de alguma outra ala do castelo,  sons de vozes e de algo sendo  jogado ao chão.
Saiu do quarto, mas nem mesmo havia percorrido todo o corredor,  surge a princesa. Plácida como sempre, calma como sempre, sorriso de sol como sempre. Explicou que não ocorrera nada demais. Também ouvira barulhos estranhos e fora verificar,junto aos  criados, quem os fizera. Mas nada encontraram. Gatos, talvez.
OUTRA NOITE
Objetos batendo violentamente contra paredes, gritos. Não havia dúvidas de que  a estranha sinfonia da noite seguinte não poderia ser atribuída a ruídos ocasionais de animais noturnos.
E a princesa também não estava na cama.
Entretanto, o príncipe não viu nas expressões dos criados com quem cruzou nos corredores e a quem perguntava, insistentemente, pela princesa, sinais de abalos maiores do que os mostrados na noite anterior,quando o barulho fora então atribuído a ( quem sabe?) gatos.
E não diferente era a expressão da princesa, que encontrou, meia hora depois, olhando, aparentemente distraída, por  uma das janelas do castelo, o pátio interno,onde nada havia a não ser sombras.
Apenas que, daquela vez, ela não deu nenhuma explicação. Pediu-lhe, docemente, tomando-lhe a mão em gesto suave,que retornassem ao quarto .
Mas ao príncipe não passou despercebida a ausência do sol, daquela luz que dela acompanhava o sorriso.A princesa queria poupá-lo de alguma coisa, concluiu. Seria da fera, a tão decantada besta que o fizera aproximar-se do castelo, dela e ,por fim,  entrecruzarem-se as vidas?
Não iria, galante que era, interrogá-la sobre isso. Não iria, também,  precavido que era, arriscar-se a ofendê-la, demonstrando não acreditar em suas palavras tranqüilizadoras sobre a inexistência do monstro.
E OUTRA NOITE
Então, em outra noite, sem esperar por sinfonias perturbadoras, o príncipe, após certificar-se de que a princesa dormia profundamente e não o veria sair, embrenhou-se por corredores, porões, sótãos, enfim, pelas entranhas ainda não lhe reveladas do castelo. Encontraria a cela especial onde a fera abrigava-se  e a aniquilaria para sempre, livrando sua amada  da condição de guardiã de tão terrível ameaça.
Horas depois,  cansado de infrutíferas buscas, movendo-se cautelosamente para não acordar a princesa, viu-se em um  corredor até então não percorrido e com uma única porta.Mexer na maçaneta foi gesto impulsivo e surpreendeu-se ao notar que não estava trancada. Abriu, estendendo o olhar sobre um  salão amplo ,  maior do que o maior dos quartos do castelo ; aquele que desfrutava com a princesa.
O luar, infiltrando-se por entre as cortinas de duas amplas janelas, permitia ver uma perfeita definição do caos. Espalhados por todos os espaços possíveis, havia objetos quebrados;  utensílios de cozinha, cadeiras, bancos, mesas, vasos, abajures, e centenas de outras coisas inidentificáveis, tal o estado de destruição em que se encontravam. 
Ao príncipe ficou claro, desde logo, que não se tratava de um cômodo cenário de destruição. Era, sim, um deposito de coisas destruídas, em outros pontos do castelo, e levadas até ali. Por quê?
Muitas perguntas, poucas respostas, muitas frustrações e  estranhezas. E, notava-o agora,muito cansaço físico. Achou um espaço, entre as quinquilharias, em um canto de parede , sentou-se e o sono não tardou a chegar, súbito como um desmaio.
Ao abrir os olhos, era o amanhecer. A luz dos primeiros raios de sol , forçando a entrada por entre as grandes cortinas,era mais forte que o brilho do luar da noite anterior, o que tornava possível, agora, vislumbrar melhor a situação caótica do cômodo. Tornava   mais definidos os objetos espalhados por todos os cantos.
Tentou  levantar-se,  mas desistiu ao notar alguém entrando no recinto, vagarosamente. O príncipe entendeu logo o motivo da cautela: a porta estava entreaberta. Quando deixou-se dominar pelo sono, na noite anterior, não lhe passou pela cabeça recostá-la novamente .
Natural despertar desconfiança na
A CRIADA
Era a mais idosa das serviçais do castelo, sexagenária, que exercia a governança .Não era difícil concluir ser assídua frequentadora do local, visto a surpresa demonstrada ante a porta entreaberta. O que não diria quando visse o príncipe ali, às primeiras horas da manhã, sentado no chão,  entre objetos quebrados?
 Levantou-se, rapidamente. Notou, na criada, certo estremecimento ao vê-lo. Porém, reconhecendo-o, logo se recompôs. Décadas de prestação de serviços  à nobreza sem dúvida contribuíram para tal autocontrole, pensou o príncipe.

“ Desculpa, senhor,não o tinha visto”, disse, com voz quase inaudível e preparava-se para sair,quando ele a chamou.
“ Espera, não vá agora. Preciso de umas explicações”, disse o príncipe. Ela voltou-se e  se postou , braços estendidos ao longo do corpo, em atitude de escuta.
E o príncipe perguntou, exigindo prontas respostas. Primeiro indagou-lhe sobre o que significava aquele quarto, repleto de destroços. E,é claro, sobre as existência da fera;onde se escondia e como chegar ao esconderijo.
Sem hesitar, a mulher confirmou que: sim, havia uma fera no castelo; sim, ela ficava presa em cela nunca antes construída; sim, apenas a princesa tinha o segredo da abertura da cela; sim, a fera era mantida a maior parte do tempo presa; sim, a princesa era impotente para contê-la na prisão em certas circunstâncias; sim, os objetos  amontoados naquele quarto eram resultado de quebradeiras promovidas pela fera, quando saia de sua prisão;   sim,  visitantes do castelo, em contato com a fera, desapareceram logo depois.
 Não,os criados jamais viram a fera. Sabiam que existia e da existência e conseqüências de seus atos  por revelações da própria princesa, Assim como tinham sido por  meio dela tranqüilizados quanto ao risco de serem vítimas. Não, dissera-lhe a princesa, jamais a fera lhes faria mal; nem ao povo do reino, enquanto ela,sua senhora, não saísse do castelo.
Ao príncipe tais explicações resultaram em inconformismo.  Como deixar em mãos de sua frágil princesa a tarefa de controlar tal monstro? Não entendiam todos que, se a princesa sucumbisse- suprema tragédia - todo o reino poderia sucumbir?
Manifestou a apreensão em voz alta e a criada limitou-se a fitá-lo, o olhar traduzindo total impossibilidade de eliminar as suas dúvidas e medos.
Resolveu obter esclarecimentos totais diretamente com a princesa.Falaria do quarto atulhado de objetos quebrados, para lembrá-la de que não adiantava esconder-lhe a existência do monstro.
Mas não conseguiu. A princesa fechou-lhe a porta , recusando qualquer contato com ele. E a velha criada, momentos depois, transmitiu-lhe o recado final: a princesa pedia-lhe que fosse embora. E não sairia do quarto enquanto isso não ocorresse.
Como aceitar decisão tão súbita e inexplicável.Que mal  fizera? Era errado tentar proteger a pessoa amada? Não, era um dever. E como acreditava que a princesa também o amava, que tomava tal decisão movida por algo muito forte, que não ousava revelar, o príncipe resolveu resistir ao pedido. Comunicou á criada que não partiria sem antes falar com a princesa e ouvir diretamente dela os motivos de sua decisão.
A princesa mostrou-se irredutível quanto a um encontro pessoal. Ao príncipe não restou senão ir embora naquele mesmo dia. Não voltaria à vila dos súditos; evitaria o contato popular.  Não queria submeter-se ao constrangimento de ter de explicar porque um príncipe falhara em defender uma princesa, contrariando todas as tradições do gênero.
Como defender quem não quer ser defendido? Ele sonhava em conquistar, definitiva mente,  a mão da princesa com o gesto heróico de livrá-la,  e a seu reino, da fera. Mas ela parecera auto-suficiente  quanto a essa missão. Forçoso foi concordar que, se  até ali a fera não a vitimara e tampouco a  seus súditos,é porque essa auto-suficiência era um fato.Mas,e os demais forasteiros que ,dizia-se, não teriam resistido aos ataques do monstro? Outro mistério. No quarto de objetos quebrados, havia apenas restos de utensílios,enfeites e móveis  domésticos; nenhuma peça de vestuário ou de armas que poderiam atestar a passagem, pelo castelo, de homens de fora.
Partiria. Se a princesa preferia o perigo a ele, é porque não lhe tinha apreço suficiente, sendo assim, inglória  a luta por seu coração.Estava pronto a enfrentar monstros e homens, jamais a indiferença.
PELA JANELA
Pela janela da mais alta as torres , a princesa viu o principe partir.Entre os pretendentes aos quais ela consentiu  , por algum tempo, compartilhar de sua intimidade, não seria este que conquistaria definitivamente seu coração.  E para eliminar qualquer possibilidade de que isso viesse a ocorrer, dispensou-o abruptamente, como fizera com os demais. 
Consumada a partida do príncipe, desceu aos subterrâneos  de uma das alas mais isoladas do castelo. Ali,em recanto onde a luz do sol jamais chegara, estava a cripta e o sarcófago do marquês, o homem a quem um dia dedicou todo seu amor e por quem foi plenamente correspondida. Aquele que a amou acima de todas as suas imperfeições e que, por isso mesmo, ali jazia .
Chorou mais uma vez a dor da saudade; reafirmou sua lealdade, confessou o medo de amar de novo e da perda.
Inevitável  sentir  o suplício de recordar um dia de muitos anos atrás quando, em mais um de seus incontroláveis acessos de fúria, que ela nunca conseguia conter, muito menos explicar , repetindo a cena tantas vezes ocorrida em seu conturbado relacionamento, atirou-lhe pesada escova de cabelos, de marfim, atingindo-lhe o crânio , matando-o instantaneamente.
Nada apaga a dor, a saudade, o arrependimento. Jurou que isso não mais se repetiria e, doravante, lutaria contra toda a possibilidade de  amar alguém, para não ocorrer  de matá-lo, em um de seus acessos de fúria, surgidos a qualquer pretexto, de origem desconhecida , que nem sempre conseguia conter e que resultava na destruição de tantos e tantos objetos ,paciente e dedicadamente amontoados pela velha criada  no quarto das coisas quebradas.
Sim, havia uma fera no castelo. E o que o príncipe e os antecessores pretendentes jamais saberiam é que sua cela, jamais construída antes e nem sempre suficiente para contê-la , era o coração da princesa.