sexta-feira, 30 de maio de 2008

PENTE DE MOTEL


Eu a imagino lá, sentada no sofá , de frente para a porta de entrada do apartamento, fingindo autocontrole. Ao falar, em tais ocasiões, força uma voz sussurrada, uma coisa de quem está começando a ficar rouco.Para mim, que a conheço bem , a falsa calma é denunciada por tiques nervosos que, nela, só nela- é incrível, meu Deus!- é diferente de todo mundo.Balançar uma das pernas cruzadas? Não. Retorcer as mãos, dedos entrelaçados? De forma alguma. Nervosa, tentando aparentar calma, ela faz movimentos no lado esquerdo do rosto. Um repuxar rápido, apertando o olho, leva-a a subir o canto do lábio , tudo como a querer, pela esquerda, fazer o queixo tocar a fronte.O estranho movimento é repetido a cada 30 segundos.
 Conversamos várias vezes sobre  sua descoberta: o pente de motel no bolso do paletó cinza. “ Love`s”, o nome ridículo impresso em vermelho sobre o rosa-leite-com groselha. Descobrira-o em uma revista de rotina. Não era seu hábito revolver-me bolsos, era zelo quando a roupa ia ser lavada. E lá estava o pente. Pequeno, de plástico mole. Quem o inventou talvez ache que negros não vão a motéis. Pentear carapinhas com tal objeto retorcendo –se ao menor puxão? Há 15 dias, o instrumento de minha tortura. Nada a convenceria quanto à sua origem.
- Alguém do escritório colocou-o aí de gozação.
A face esquerda repuxando, o olho esmagado por pálpebras, o queixo querendo subir; o sussurro:
    -Você disse que ninguém lhe faz brincadeiras no escritório, pois é considerado o chefe mais sério.
O sussurro.Por que ela não gritava como outra esposa qualquer? Por que não lhe jogara uma das panelas na cabeça, o colocara porta afora? Não. Nem na descoberta fatídica fizera isso. Surgira na sala com o objeto na mão. A face esquerda...etc.E o sussurro.Tudo bem. Então, alguém o colocara lá. Talvez fosse até eu mesmo. Sem querer pegara em algum lugar
- Em algum lugar, onde? Pente de motel só se encontra em motel.
E no bolso de meu paletó cinza, é claro.Durante quinze dias, na saída e na chegada, o mantra:
- Já tem uma explicação para mim?
Há três dias, decidiu ela mesma terminar a tortura diária. Disse que, se eu não tivesse  uma história convincente, não precisava voltar para casa após o trabalho.
E, enquanto eu me retirava, sentou-se no sofá, o pente entre as mãos. O insuportável sussurro de pré-rouquidão; o  intragável repuxar da face paralisada foram gestos que conheci e aprendi a odiar por duas  semanas porque não conseguia explicar a presença do maldito objeto no bolso de meu paletó.
Mas agora sei.


No dia  em que me foi dado o prazo fatal, não sabia. E, ironia,  tive que passar a noite em  um motel , situado à margem da estrada que percorro caminho do trabalho.  Karinho`s. Deus meu , por que nomes de motéis têm de ser tão obviamente  idiotas?
Recordo de minha primeira pousada ali, a primeira fora de casa desde meu casamento. Deixei a roupa que usei durante o dia cuidadosamente dobrada sobre a mesinha da saleta de entrada.Teria de vesti-la de novo no outro dia, no serviço, e não convinha que estivesse amarfanhada.
Reparei nos utensílios  sobre o gabinete da pia: toucas de plástico,preservativos,miniaturas de  sabonetes, perfumes, escovas , pasta de dente.
E pentes.Com o nome  do motel gravado. Propaganda? Mas alguém leva isso para casa? Casados não o fazem,por motivos óbvios; solteiros também não,porque são de má qualidade, quebradiços,feios.Qual a utilidade da propaganda no pente,então? Mistérios de motel.
Não telefonei para casa;mas deixarei o celular ligado. Alimentava a esperança de que ela me ligasse, levada pelo inusitado de minha primeira ausência noturna após tantos anos casados.
Não ligou. Confirmava, assim, a intenção  de só aceitar contato comigo se fosse para obter explicações convincentes.
De manhã,  cheguei  no serviço e dirigi-me diretamente para minha sala.O momento delicado que vivia, somado à roupa repetida, deixava-me inseguro. Queria evitar ao máximo contatos  pessoais. Felizmente, não havia reunião agendada, nem entre chefias, nem com funcionários.
Perguntei à secretária se havia ligações para mim Não. Pedi e trouxeram-me, minutos depois, café com leite e pão com manteiga, torrado na chapa..Nada de inusitado.Muitas outras vezes fiz igual desjejum no escritório.
Rotina semelhante repetiu-se por mais três dias.Continuei no motel. Comprei mais algumas peças de roupa,  utensílios pessoais. Nenhum contato por parte dela. Também resisti e não a procurei. Mas sabia ser uma situação insuportável  por muito tempo. Até mesmo por razões práticas, não dava para continuar vivendo em um motel. Sem falar que ninguém, no serviço e em meu circulo mais próximo de amizades, conhecia meu novo cotidiano. Procurava portar-me como se nada de anormal estivesse acontecendo.
E eis que no quarto dia,acendeu-se a luz. Foi quando aquele chefe de divisão da empresa entrou em minha sala. O cinza de seu terno atingiu-me como cor fosforecente.
A lembrança veio rápida.Na última reunião de chefias, ocorrida há um mês,  vestíamos ternos semelhantes.Fazia calor e todos colocamos os paletós nos encostos das cadeiras. Meu Deus, como não pensei nisso antes? Ao sairmos da reunião, pegamos os paletós trocados. O pente de motel estava no bolso do paletó dele, não no meu.
 Contei-lhe toda a história, ele a  ouviu com expressão entre divertida, curiosa e preocupada. Sem dúvida, jamais passou  por sua cabeça que eu um dia  lhe faria tais  confidências . Nem pela minha. Mas tratava-se de minha vida e, nesta hora, o executivo fechado, de poucas brincadeiras, precisa despir-se da sisudez.
Confirmou a possibilidade de ser mesmo dele o paletó , com o pente  no bols . Estivera dias antes, com a mesma roupa, em um motel, com uma de suas várias namoradas.
 Entretanto, como essa confirmação iria ajudar-me?  Os paletós são muito parecidos, em cor e tamanho.Argumentou : mesmo  que ele fosse , pessoalmente, contar à minha mulher o ocorrido,  levando o paletó trocado como prova, como convencê-la de  que aquilo não era apenas parte do álibi entre colegas? Que o verdadeiro paletó , depositário da prova do crime, era, mesmo, aquele  no armário de casa?
Pedi para examinar o  paletó.E uma luz substituiu o cinza do dia.

Estou aqui,diante dela,que sussura:
- E então, tem a resposta?
Ao perguntar,  não me olha. Fita o embrulho que seguro. Ao invés de responder, peço que me traga o paletó depositado na gaveta do quarto.Ela atende.
Quando volta, peço que examine atentamente  .Ela o faz. Sempre em silêncio. Terminado o exame, fita-me novamente, com uma interrogação no olhar. Como previ, ela não observou o detalhe. Mostro-lhe o embrulho que trago.
-  Aqui está o terno de um colega que, há 30 dias, participou comigo de uma reunião de trabalho. Como você vê, é idêntico ao meu.
Estendo o paletó e peço que o examine.Ela o revira entre as mãos.
- É igual ao seu. O que quer dizer tudo  isso, afinal?
- Esse é o meu paletó. No dia da reunião, meu colega pegou-o por engano. E,também sem notar, , peguei o dele, que tinha o pente no bolso.
Olhou-me incrédula e seu sussurro, agora,tinha algo de raiva.
-  Acredita que sou idiota? Você pode muito bem ter comprado um terno igualzinho ao seu  e inventado essa história.
- Então,peço que você pegue a calça do meu terno lá no quarto.
-Ela o faz. Sua rapidez  mostrava que, agora, a curiosidade move-lhe os gestos.
Solicito de novo.
- Veja as etiquetas do paletó e da calça.
Então ela nota. São diferentes.Seu olhar traza, agora, algo de perplexidade.
Mostro-lhe as etiquetas da calça e do terno do meu amigo. Desnecessário dizer que também são diferentes.  
Então, não resisto ao gesto teatral: destroco as peças, juntando cada uma delas a seu par original.
- Este é meu terno. Este é o terno de meu amigo. Este é meu paletó.Este é o de meu colega.
Olha-me desconfiada. Mas não se dá por vencida. Pensa por alguns segundos, em busca de alguma explicação mais condizente com suas teses. Não lhe dou  tempo para maiores raciocínios.Preciso terminar logo com aquilo.
- Você sabe que eu não tive condições de trocar as peças no tempo em que estive aqui após o encontro do pente , pois você trancou o terno na gaveta.Você sabe que estas peças que trouxe agora me foram dadas realmente por meu colega de trabalho.E, para que não paire nenhuma dúvida, veja isso aqui.
E  entrego-lhe o extrato de cartão de crédito de meu colega, mostrando que seu terno fora comprado há seis meses, angtes de todos estes acontecimentos. Ou seja, eu não poderia ter comprado as peças agora,  para criar um álibi.
Não, ela não se atira em meus braços pedindo-me  perdão. Não, ela não vai para o quarto chorar, arrependida. Não, ela não ri,mesmo nervosamente, solicitando-me que esqueçamos episódio tão ridículo.
Ela entrega o terno de meu amigo e pede-me que o devolva . Recolhe minhas peças e as leva  para quarto. E depois, não me dirige mais a palavra.

Amanhece. Como sempre, acordo antes dela, preparo o café, faço o desjejum e e preparo- me para sair, antes dela levantar-se. Nada diferente de antes, se não a ouvisse chamar do quarto.
- Quero  me esclareça uma coisa, mas não precisa ser agora.Não quero atrasá-lo.Pode ser quando você voltar.
Pergunto  o quê. Ela sussurra:

- Onde você esteve e o que fez nos três dias  em que não dormiu em casa?  

quinta-feira, 29 de maio de 2008

PROVAS DE AMOR



- Vim o mais rápido que pude. Você parecia tão desesperada ao telefone!
- Ele me deixou.Ele não me ama!
- Não acredito
- É isso mesmo que estou falando. Ele me deixou. Ligou de São Paulo, logo
depois do programa de TV, e disse que não vem mais para casa. Eu sabia . Ele não me ama. Nunca me amou. Sequer pensou em me amar!
- Incrível!
- Exatamente. Vivi estes três anos desiludida com suas demonstrações
de amor. Estava sendo enganada o tempo todo.
- Mas, meu Deus, ele sempre foi fiel, sempre esteve ao seu lado e vivia
manifestando, publicamente, o que sentia por você. Como é que, de repente, toma essa decisão?
- Outra mulher. Só pode ser outra mulher. O que poderia ser?
- Melhor você se acalmar. Toma este copo de água, respira fundo. Nestas
horas é preciso ter calma. Alguma explicação tem de haver.
- Você sabe que eu sempre tive insegurança sobre o que ele sentia por mim.
Afinal, demorou muito para largar a primeira mulher e vir morar comigo. Mas , de uma certa forma, tomava atitudes que me tranqüilizavam nos momentos de insegurança.
- Isso é verdade. Como naquela vez em que vocês passaram em frente do banco
onde a ex-mulher dele trabalhava e você pediu para entrar.
- Queria que ele me apresentasse à ex-mulher e dissesse a ela que me
amava. Ele fez isso. A mulher ficou com cara de boba. Só disse “ Ahnn”. E saímos logo a seguir, antes que ela falasse qualquer coisa.
- E você ficou mais tranqüila quanto aos sentimentos dele pela ex-mulher,
não é mesmo?
-Ainda ficou um senãozinho: fui eu que pedi. Seria melhor se tivesse agido
espontaneamente. De qualquer forma, foi uma prova de amor.
- É verdade
-Não esqueço, também, do caso com a família dele.
-Desse eu não sabia.
-Tive uma vez uma briga com a mãe e os irmãos dele. Ele parou de falar com a família. Um dia, cruzamos com a velha na feira e ele nem olhou para ela.
- Realmente, ficou do seu lado.
- Eu tinha falado, depois da briga, que se ele me amasse, jamais falaria
com a mãe e os irmãos novamente. Afinal, a sua família, agora, era eu, não é mesmo? Ele entendeu e rompeu relações.
- Outra forte prova de apreço por você.
- Mas agora vejo que tudo era uma ilusão.Do jeito que ele falou , ao telefone,
gaguejando, voz trêmula, nem parecia o homem que pouco tempo atrás chamou aquele meu antigo chefe de serviço para a briga.
- É mesmo?
- O cara gritou comigo por causa de um problema no trabalho. Me senti muito humilhada e fui para casa mais cedo. Quando ele chegou , expliquei o que tinha acontecido. Disse para eu pedir demissão, afinal a gente nem precisava daquele salário.
- E você pediu?
-Sim, mas não consegui esquecer a humilhação. Um dia, no shopping,
quando cruzamos por acaso com o ex-chefe, não aguentei: pedi para ele tomar satisfações. Você sabe, assim o cara saberia que eu tinha quem me defendesse; não era uma desprotegida da vida.
- Mas ele nunca foi de briga!
- Os dois quase saíram no tapa.Se não fosse a segurança..
- Não consigo imaginá-lo , pacato e tímido do jeito que é, fazendo uma coisa
dessas.
-Acho que, quando um homem ama sua mulher, deve ser o defensor dela. Foi outra demonstração de amor que pedi e ele deu.Lembrando essas coisas, aumenta minha revolta agora
- Também estou surpresa. Lembro que conheci vocês dois quando compraram de mim aquele apartamento na praia. Recebi uma bela comissão.
- Pois é. No começo , dizia que o apartamento era muito caro e lembrei que, se vendêssemos o que a gente morava e aquela ocupado pela tia dele, dava para conseguir uma boa entrada e o financiamento sairia mais barato.Respondeu que não podia fazer isso porque tinha compromisso de deixar a velha morando lá depois que ficou viúva.
- E como isso ficou resolvido?
-Do jeito que deveria ser resolvido, né?A tia foi viver com a mãe dele, que é irmã dela. Afinal, morava no apartamento há muito tempo, desde que ele era solteiro, quando o comprou. Antes, nunca precisamos do imóvel, mas, agora, surgia uma necessidade. Foi isso que expliquei quando ficou indeciso. Acharia muito estranho se ele deixasse de pensar em nós nessa circunstância. Seria uma prova de desamor
- Parece que, mais uma vez, deixou claro que você estava acima de tudo.
-Me senti segura.
-E agora tem essa história do programa de TV. Todo mundo comentou. Que coisa incrível!
- Pois é.Tudo começou naquele dia, no aniversário, quando o pessoal falava
sobre televisão.
-Lembro..Criticávamos os programas de calouros e as situações ridículas em que as pessoas sem talento ficavam.
-Então. Aí, voltávamos para casa, e, não sei por que, tocamos no assunto. Perguntei se ele seria capaz de ir a um programa de calouros.
-Claro que respondeu não! Não sabe cantar e, mesmo que soubesse, tímido
do jeito que é, nem chegaria na porta da emissora para se inscrever.
-Isso mesmo. Mas, desafiei: seria capaz de se apresentar no programa só para demonstrar amor por mim?
-Pediu isso?
-Veja bem. Não pedi para ir lá cantar, pois sei que ele não sabe. Seria só um pretexto para, diante das câmeras, em rede nacional, dizer que me amava. Uma coisa legal, né?Argumentei que seria o momento mais feliz da minha vida. Ele foi e fez. Queria muito ver a cara da ex-mulher dele naquela hora.
- Até o apresentador ficou surpreso. Depois que ele desafinou e foi gongado, correu para diante da câmera, gritou teu nome bem alto e completou: te amo!
- Pois é. E, meia hora depois, telefonou dizendo que não vinha mais para casa. Dá para entender um absurdo desses? Só pode ter outra mulher na história. Ele não me ama, nunca me amou.
-Calma. Não adianta se descontrolar. Mas foi só isso que ele falou,mesmo?
-Bem, na verdade, não disse que não ficaria mais comigo. Disse que não
voltaria para cá. Iria permanecer uns dias na casa de um amigo, na capital, enquanto providenciava nossa mudança. Alugaria um escritório e um apartamento lá e, em pouco tempo, a gente mudava de uma vez. Ja viu coisa mais ridícula?Por que ele não pode mais voltar?
- Você sabe, ele sempre foi muito acanhado e, fazer o que fez, na TV, deve ter sido difícil. Deve ter pensado o quanto seria constrangedor voltar a conviver , agora, com os amigos, conhecidos e, principalmente, no fórum, com os colegas advogados, juízes, promotores, funcionários, clientes...
- Quer dizer que ele está com vergonha de ter declarado por mim mim?
-Não é bem assim...
-Além disso, como pode querer que eu mude para São Paulo? Não gosto de lá, vivi sempre aqui na Baixada. Minha família , meus amigos, minhas recordações de infância, os locais onde faço compras, meu cabeleireiro, estão todos aqui. Como pede que eu mude minha vida de uma hora para outra ?
- Sim, mas...
- Ele não me ama. É só isso, e nada mais.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

O FILHO



- Sou seu filho!
De aparência mais velha do que a idade , o homem que falara não parecia acumular os anos que sugeriam a calvície , a boca desprovida dos dentes frontais superiores e os sulcos rugosos de testa e pálpebras. Mãos de dorsos venosos, dedos finos e longos, unhas enegrecidas de tabaco : marcas mais de sofrimento,pobreza ou desleixo do que do passar do tempo
- Sou seu filho.
- Não entendi!, retrucou.
- Exatamente isso: sou seu filho, você é meu pai e esse é o assunto sobre o qual estou tentando lhe falar há duas semanas , mas você nunca me atende.
“E não deveria tê-lo feito nunca. Esse cara é maluco”, pensou, enquanto examinava melhor o outro, sentado à sua frente, no escritório.A roupa era coerente com a degradação física: paletó e calças amarfanhados, a camisa com uma lembrança amarelada de brancura, sapatos foscos, sem meias. Se estivesse de chapéu e gravata, estes seriam amarfanhados também, impossível imaginar o contrário.
- Sou seu filho.
Sentido faria se dissesse “ sou seu pai”, igualmente um absurdo, já que ele completara 65 anos. É claro que a aparência indicava bem menos que isso. Ginástica, massagens, alimentação balanceada, austeridade de hábitos, exames médicos preventivos,cirurgias plásticas e uma década de redução da carga de trabalho explicavam tudo.Sem falar que nunca se casara, o que, sem dúvida, lhe agregara mais uns toques de juventude.
E conhecera o pai, com quem tivera uma convivência de pelo menos meio século até a morte dele, sem nenhuma dúvida quanto à filiação. Se o sujeito dissesse “ sou seu irmão” teria muito mais lógica, sabe-se lá os roteiros da história do velho . Mas, “seu filho”?
Precisava livrar-se do maluco o mais rápido possível.
A estratégia inicial seria não contrariá-lo. Não se contrariam doidos.Pediu licença, com um gesto que lhe pareceu de cumplicidade e foi até a antesala, onde a secretaria, ar preocupado e ansioso, o atendeu.
-Como é que você deixa um sujeito desses entrar aqui para falar comigo?
- Mas eu não sabia que ele era assim.
- Você não falou com ele antes?
- Não. Falei com o advogado dele, com quem marquei a audiência.
- Advogado dele?
- É. Confirmei os dados . Por isso é que demorou quase um mês para acertar o dia e horário Só não sabia que era esse o cliente e que ele vinha sozinho, com um cartão do doutor.
- Mas você não perguntou qual era o assunto?
- O advogado disse que era sigiloso. Só anotei os nomes. Ademais,quando aprovou a agenda , o senhor não fez nenhuma pergunta e eu achei que já sabia do caso.
- Não lembro direito nem o que comi ontem. Ando preocupado demais com a pré-produção daquela maldita novela. Precisamos nos livrar do cara. O truque de sempre.
Há milhões de truques na vida em sociedade.O da secretária, para livrarem-no dos indesejáveis, era simples: avisava-o de que estava atrasado para “aquela reunião importante”.
Voltou à sala.O velho o esperava, na mesma posição de antes, sentado na ponta da cadeira; corpo curvado .
- Quer dizer, então, que é meu filho? Quantos anos o senhor tem?
- Cinquenta e três.
“ Aparenta 70” pensou, atenção atraída agora para entrada da secretária
- O sr. já está atrasado para aquela reunião.
- Ah, sim, a reunião! Muito importante. O senhor me desculpa. A gente pode conversar outro dia. Marca a data com a dona Selma. Precisamos esclarecer alguns pontos. Afinal, o senhor há de convir que, para ser seu pai, precisaria ter transado com sua mãe quando eu tinha 12 anos.
Sem esperar resposta, seguiu o ritual do truque: levantar-se rápido, vestir o paletó, dar a mão para o visitante, deslocar-se a passos largos para a sala de reuniões, enquanto a secretária , eficiente, já se adiantava e conduzia o velho à de recepção.
Rapidez insuficiente para impedir o homem de falar e ele ouvir:
- Mas foi isso mesmo o que aconteceu!
- O quê?
- Você tinha 12 anos quando transou com minha mãe.

Prezado sr. Objetiva esta desculpar-me pelo episódio de ontem, do qual foi protagonista meu cliente. Escrevo do hospital, onde internei-me às pressas por causa de uma crise de rins. Avisei o cliente de que não poderia ir à reunião que marcara no escritório de V.Sa. , expliquei os motivos e fiquei de informá-lo sobre uma nova data. Não poderia imaginar que ele iria sozinho naquele mesmo dia.
Semanas atrás, ele apareceu em meu escritório dizendo-se filho não reconhecido de um famoso produtor e diretor de tv, teatro, cinema e queria provar isso na Justiça. De início, fiquei cético: não era a primeira vez que alguém se dizia filho de uma celebridade. À primeira vista , tudo soava muito frágil , a começar pelo fato do filho parecer mais velho que o suposto pai.
Porém, veja: moça de 18 anos, empregada doméstica, seduz o garoto da casa,de 12 anos, engravida e é expulsa pelo patrão. Havia algo de crível na história, por isso peguei o caso. Mais esclarecimentos darei pessoalmente na audiência do Fórum. Atenciosamente, Dr. B.


Processo findo,paternidade confirmada, a hora, enfim, da conversa entre pai e filho .Fez questão de que ocorresse na casa do filho, onde satisfaria de vez todas as curiosidades.
Primeira surpresa: não era um casebre em favela, como supunha. Apartamento modesto, em bairro regular. Segunda surpresa: morava sozinho . Terceira :estante cheia de livros na sala.
- Agora, o que o senhor quer de mim?
- Nada.
A resposta foi a maior das surpresas.
- Como assim,nada?
- Só isso: nada. Já tenho tudo de que preciso: casa própria, aposentadoria, nada de filhos criados ou por criar, nem netos. Minha única parente viva era minha mãe. E você, é claro.
- Sua mãe morreu?
- Há 10 anos, no nordeste. Eu não a via há 20, desde que vim para o Rio de Janeiro trabalhar.Durante os anos em que vivi com ela, a única coisa que soube sobre você é que tinha me abandonado quando ela estava grávida. Jamais me revelou sua identidade.
- E como o senhor soube da história toda?
- Por uma amiga dela,a quem fez confidências uma semana antes de morrer. Anos depois,essa amiga soube onde eu morava e mandou-me uma carta, contando tudo. Antes desta revelação, passei a vida inteira remoendo mágoas do pai que me abandonara.
- Meu Deus, eu era um garoto ! Nunca me falaram da gravidez da empregada. Aliás, nunca soube por que ela foi despedida de casa. E, mesmo que soubesse de tudo, como é que, com 12 anos, poderia assumir a paternidade? Esta história com sua mãe só perdura em minha memória, meio século depois, por tratar-se de minha primeira experiência sexual, coisa que homem algum esquece. Mas nunca tive a menor idéia das consequências dela.
- Como vê, vivemos, os dois, por meio século, sem ter idéia de nada.
- Responda-me: por que teve tanto trabalho para me localizar e iniciar este processo?
- Primeiro, queria desculpar-me pelos anos em que o amaldiçoei. Depois, porque acho que todo pai e filho têm de saber da existência um do outro. Fui privilegiado porque não apenas sabia que tenho um pai, como cheguei a identificá-lo. Mas você nunca imaginou que tinha este filho. E, com certeza, jamais acreditaria se alguém o dissesse . O processo na Justiça era , então, a única maneira de fazê-lo acreditar.
- Qual é sua profissão? O que o senhor faz ou fez ?
- Sou jornalista aposentado por invalidez. Muito cigarro, muita cerveja, muito uísque,muito sexo, pouco sono, pouco exercício, muito desleixo e eis-me aqui, velho, enfizemático, com uma expectativa de vida menor do que você, que me gerou.

Antes de entrar no carro, deu uma última olhada no prédio, talvez esperando ver o filho à janela do apartamento. Não estava. Missão cumprida, devia o velho estar pensando, no sofá da sala, cigarro na mão.
Nada mais, material ou espiritual, dava consistência àquela relação, à exceção das folhas registradas em cartório.A maneira como tudo terminara provocava-lhe mais alívio do que constrangimento. O que parecia, de início, muito importante, agora não era mais.
Partida acionada, deu-se conta de que, o tempo todo, desde o primeiro dia no escritório, chamara o filho de senhor e o filho o chamara de você. Mas isso também não tinha importância. Precisava, agora, era de uma boa massagem.

terça-feira, 27 de maio de 2008

NA UTI DA ALA 2



As enfermeiras não sabem mais o que fazer com o paciente da UTI da Ala 2, que está dando muito trabalho, arriscando a própria vida. Não pára de se mexer e demonstra irritação. Sabem que o doente não pode falar, por causa do tubo de respiração que lhe penetra a traquéia, mas ouve-as e, por isso, dizem-lhe para ficar calmo , em seu próprio benefício, mas ele faz gestos nervosos , querendo retirar os aparelhos. Ninguém sabe quem é. Fora encontrado inconsciente, caído em uma calçada, sem nenhum documento consigo.
O doente da UTI da Ala 2 não se conforma por estar ali, paralisado, sem poder falar com ninguém. Saiu do estado de inconsciência, ouve as enfermeiras comentarem o que lhe ocorrera. Tenta falar, mas não consegue. Pode mexer um pouco o braço direito e procura, com sofridos movimentos, chamar a atenção das duas mulheres. Elas pedem que se acalme, dizem-lhe para não se movimentar muito e, com palavras cuidadosas, tentam explicar-lhe o que ocorrera, informando-o sobre seu estado clínico. Mas ele não quer receber explicações, quer explicar-se. Em vão.
O médico alerta as enfermeiras de que a ansiedade e a tensão são prejudiciais para a recuperação do doente da UTI da Ala 2 e que, por isso, caso se mostre muito agitado, devem sedá-lo. Isso já havia sido feito uma vez e as enfermeiras estão preocupadas ante a possibilidade de terem de fazê-lo de novo. Repetem os conselhos para que o doente se acalme, evitando, assim, a medicação. Mas o paciente parece cada vez mais nervoso e sua irritação aumenta quando olha para o relógio da parede em frente.
O doente da UTI da Ala 2 quer que compreendam que às oito horas da noite aproximam-se. Se não conseguirem identificá-lo, não poderão avisar à sua mulher, que o está esperando naquele horário. Como manter-se, portanto, calmo, se é impossíve desviar os olhos do maldito relógio na parede em frente, cujos ponteiros movimentam-se mais ameçadores do que o pêndulo do conto de Poe?
As enfermeiras da UTI da Ala 2 já se preparam para aplicar a segunda dose de sedativo no paciente, que não pára de se mexer, arriscando-se a soltar todos os conectores que lhe monitoram o organismo. E intuindo o que está prestes a acontecer novamente, ele intensifica os parcos movimentos que lhe permitem a fraqueza: levantar o braço, o joelho e os músculos da face, todos do lado direito do corpo.
O que o doente da UTI da Ala 2 pretende é alertar que já são sete horas da noite e, sendo sedado de novo, poderá não acordar antes das oito. E não conseguirá comunicar-lhes, a tempo, que precisam avisar à sua mulher de que não chegará no horário previsto. Só quer uma chance para revelar um número de telefone. O doente da UTI da Ala 2 desespera-se porque não consegue comunicar o desejo de se comunicar.
Minutos após ter-se ausentado, uma das enfermeiras da UTI da Ala 2 retorna, confabula com a companheira e aplicam-lhe apenas meia dose de sedativo, conforme a nova determinação do médico. A idéia é conter os movimentos bruscos e, ao mesmo tempo, mantê-lo consciente, eliminando os riscos de agravamento do quadro.
Meio sedado, o paciente da UTI da Ala 2 sente-se lasso, de raciocínio lento e a ansiedade é substituída por melancolia quando olha o relógio da parede em frente. Parece flutuar e o esforço , agora, não é para se comunicar com as enfermeiras e, sim, recapitular fatos recentes da vida. Não lembra como tudo começou, mas a verdade é que seu relacionamento com Mara anda complicado. Os 12 anos de casamento, com todas as suas idiossincrasias , estão desaguando nos últimos 12 meses , recheando-os de desconfortos psicológicos. Transpuseram montanhas antes e, agora, não superamn formigueiros. Entre eles, os horários. Irritava-a profundamente que ele não cumprisse horários, magoava-o que ela se irritasse. Talvez, inconscientemente, para compensar todas as concessões anteriores ( não fumar, não beber, não falar alto, não palitar os dentes, não visitar os amigos, não andar depressa , não assistir ao futebol na TV, não discutir política, não...) é que ele não conseguia cumprir o quesito “ chegar- na- hora- certa- do almoço- e- do- jantar”, o que a levava à beira da histeria. E, há um mês, antes que tudo desmoronasse, firmaram um acordo: não precisava vir almoçar em casa, mas, à noite, tinha de chegar às oito horas. Em caso de atraso, avisar antes. Se fosse chegar atrasado e não avisasse, não precisava chegar mais.
As enfermeiras não sabem e talvez nunca saibam por que é que o paciente da UTI da Ala 2 está dando tanto trabalho, arriscando a própria vida.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

JUNTOS, JUNTINHOS



- Oi, Télia,tudo bem?
- Oi, tudo bem? O que você trouxe hoje?
- Discos
- Verdade? De quem?
- Ora, nem precisa perguntar? Dos Beatles.
- Boa escolha
- São os que mais gosto
- Pode ir lá.
Ele já conhecia o caminho.Cruzou a pequena sala de TV, dirigiu-se ao escritório nos fundos de um corredor. Antes de fechar a porta, ouviu a pergunta gritada da cozinha:
- E a Rejane, onde foi hoje?
Respondeu, também gritando, ao mesmo tempo em que, com gestos rápidos e nervosos, retirava os discos das capas.
- Ao fisioterapeuta. Ficará lá pelo menos por duas horas.
- Um bom tempo.
Fechou a porta do escritório. Escolheu um disco, colocou-o no aparelho com a mão direita, enquanto que, com a esquerda, acionava os botões. Os mecanismos mal se movimentavam e ele, de olhos fechados, já estava recostado no pequeno sofá, ao lado da escrivaninha. Do jeito que sempre quis. Sonhando. Era Paul McCartney. O contrabaixo em suas mãos, o mais obediente dos servos.Cantava docemente o sonho das meninas. Queriam beijá-lo, mordê-lo, amá-lo, mas ele, indiferente, acariciava apenas as cordas do instrumento.O toque de sua boca era reservado somente ao microfone. Longe, nos agudos, perto nas  emissões dos graves. A  alma passeando leve, flutuante.
- Ei!
O som, a princípio, confundindo-se com a música.Depois, bem próximo e identificável.Télia chamava. Um salto e estava perto da porta, que abriu imediatamente.
- Pensei que você tivesse dormido.
- Acho que cochilei um pouco.
- Está na hora.
- É mesmo. Já arrumo tudo. Vai dar tempo.
Um dia não daria. Porque ele, com certeza, talvez não quisesse. Ou porque não o controlasse.Mas um dia, com certeza, ganharia, sem esforço, o seu instante de solidão.Não precisaria aguardar conveniências: a hora do fisioterapeuta, a ida ao supermercado; o horário do cabeleireiro.
Télia, abençoada Télia! O que seria dele sem a sua irmã? Sem aquele escritório e aquela compreensão? Télia conhecia sua história. Acompanhara seus primeiros tempos de namoro com Rejane. Não fora madrinha de casamento porque a noiva já tinha sua preferência: uma prima.
Conhecera Rejane na escola. Ele, professor de português/inglês, recém-chegado. Ela, professora de geografia. Empatia rápida, namoro quase imediato, o casamento inevitável.E a constatação: Rejane não o deixava só. Considerava dádiva o fato de trabalharem na mesma escola. “ Sempre juntinhos, sempre juntinhos”, repetia , e o abraçava , cabeça levemente recostada em seu ombro., o que o enternecia e deixava vaidoso. Aquela necessidade de Rejane de tê-lo sempre por perto, à vista, palpável reforçava-lhe a auto-estima.
Iam juntos à escola. Quando coincidiam os intervalos de suas aulas, ela o procurava na sala dos professores. Tomavam cafezinho juntos.Se ela saísse antes, o esperava. O contrário.
Certo dia, comentara o fato com Télia, não escondendo certo orgulho.Ela não se mostrara tão animada.
- Sei não. Você não está se violentando?
Ela sabia do que falava. Conhecia, desde os tempos de solteiro, suas necessidades de solidão, seu hábito de trancar-se no quarto por horas, para ouvir música, principalmente dos Beatles. Acostumara-se a vê-lo silencioso, desde adolescente , mergulhado em leituras, isolado do mundo. Mas ele não deu crédito à observação da irmã. Como estaria se violentando se a mulher que amava necessitava da presença dele como do ar que respirava?
O primeiro ano de casamento passou sem que nem mesmo alguns aparentes excessos ( assim os achava Télia) constituíssem problemas. Rejane não gostava que se fechasse a porta do banheiro. Para quê, afinal, fazer isso no lar de um casal? Trancar-se no quarto para ouvir discos, ler, não é, antes de mais nada, uma atitude egoísta?Não teria Rejane razão ao constatar que longos períodos de leitura os afastavam um do outro? Sair sozinho com amigos, por que, se tinha, agora, uma esposa com quem sair? Ficar só, por quê? Casara-se para ficar só?



Até que um dia inventou-se o compact-disc. Até que um dia lançou-se uma coleção de todas as músicas dos Beatles em compact-disc. Até que um dia sobrou-lhe dinheiro para comprar um aparelho de reprodução de compact-disc.E, de quebra, toda a coleção dos reis do ié-ié-ié, que iria ouvir sem os chiados de suas já vetustas bolachas de vinil. John, Paul, George e Ringo, na plenitude da pureza de som. Compact-disc.
A primeira audição seria um momento sagrado. A reclusão se fazia necessária. Fechou-se no quarto, ajeitou a parafernália.
Télia tinha razão. Se não se violentara antes, violentou-se naquele dia.Rejane quase quebrara a porta. Acusou-o de estar esfriando o relacionamento, de egoísmo. Não suportando a ira, levantara a possibilidade de que estivesse interessado por outra mulher.Sim. Sem dúvida trancara-se no quarto para ficar pensando nela. Quem sabe, até se masturbando.
A muito custo conteve a explosão.Desligou o aparelho de som,guardou os discos. Carinhos, abraços, beijos. A mulher acalmou-se. Fez-lhe prometer que jamais faria aquilo. Não mais faria o quê? Ouvir música sozinho no quarto? Este crime conjugal imperdoável? Resignou-se, fez a promessa. Seu casamento era mais importante.



A partir de então, Rejane tornara-se mais aderente. E o gosto amargo da primeira concessão não o abandonaria jamais. Trabalho juntos, passeios juntos, cafezinhos juntos, lanches juntos, ver TV, juntos, visitas a parentes, juntos; juntos, juntos, juntos.
Os momentos ocasionais de separação eram frutos de conveniências dela: fisioterapia, cabeleireiro, compras, coisas para as quais Rejane, curiosamente, dispensava sua presença.
- Então, te espero na casa da Télia.
Ela concordava. Era na casa da Télia que ele ficava sozinho. Paradoxal que precisasse de outra pessoa para ter solidão. Refugiava-se com os discos e livros, controlando o tempo.A mulher, ao voltar, deveria encontrá-lo com Télia, na varanda, na cozinha, na sala de estar... Não prometera isolar-se jamais? Não interpor aos dois uma barreira de silêncio? Télia era o elo de ligação confiável, uma espécie de controladora de tensão enquanto um dos pólos da bateria estivesse temporariamente desativado.
Até quando?

quarta-feira, 21 de maio de 2008

LAURA, DA PADARIA



- Que é isso?
- Fica quieto. Este revolver não é de brinquedo. Portanto,não tente dar uma de besta. Vamos sair da portaria e subir ao apartamento. Sua mulher está comigo, mas veio de livre e espontânea vontade. Permita que me apresente: sou o irmão da Laura, da padaria.


***
- Queria pedir desculpas pelo que aconteceu aquele dia.
- Que é isso!
- Foi muito chato.
- Se soubesse que seu patrão ouviria, não teria reclamado do sanduíche.
- Ele é muito ignorante. O senhor nem estava brigando.Só dizendo que tinha pedido sanduíche de queijo.
- Eu ia comer o de presunto do mesmo jeito.Também gosto.
- É, mas o português foi logo me mandando ir pra dentro. Fiquei até com vergonha.
- Mas agora está tudo bem, né?
- Está. Agradeço o senhor por ter falado para ele que o caso não tinha importância.
- Tudo bem.
- Meu nome é Laura.
- Prazer.


***
-Você pensou que nunca ia ser descoberto, não é mesmo? Que ia continuar levando sua vidinha sem nenhum problema.Acontece que resolvi levantar tudo. Falei com as meninas da padaria; com o zelador do prédio. Não foi difícil descobrir quem era sua mulher, entrar em contato com ela, contar tudo e trazê-la aqui, para confirmar na sua frente.Aliás, vocês aqui do prédio precisam dar uma dura no zelador.Ele fala demais, principalmente depois de umas duas cervejas. A coisa ficou mais fácil ainda porque sou investigador de polícia e interrogar é comigo mesmo.

***
- Moro em Praia Grande, com meu irmão e minha cunhada. Ele é investigador de polícia e vive dizendo que é perigoso trabalhar aqui em Santos porque chego tarde em casa. Mas foi o único emprego que arranjei e eu já não agüentava mais viver de favor na casa deles.Agora tenho dinheiro para minhas coisas e ainda dou uma ajuda preles dois. Gosto das meninas da padaria, dos padeiros. A única pessoa chata é o português. O senhor acha que estou falando muito? O senhor é meio calado, as meninas dizem que sou a única que consegue conversar com o senhor, mas só eu falo.
- Não é bem assim, eu também falo.
- Mas não diz muita coisa. Chega de manhã, toma café; passa de noite, faz o lanche e vai embora. Não é que nem os outros fregueses, que conversam, dizem piadas pra gente, aparecem com os amigos.
- É o meu jeito
- O senhor é casado?
- Sou.
- Mas nunca vi o senhor com sua esposa.
-Não moro com ela.
-Como assim?
-A gente vive em casas separadas: ela lá na Ponta da Praia e eu aqui, no José Menino.
-Nossa! E isso dá certo?
-Ainda não sei direito.


***
- Sua mulher me disse que vocês fizeram um trato de viverem em casas separadas para salvar o casamento. Só que ela não esperava que você fosse tão sem-vergonha, não é mesmo?Quando se sentiu livre,a primeira coisa que fez foi arranjar um caso.E justamente minha irmã, uma menina ainda. Não tem vergonha, não?Um homem de 50 anos tendo caso com uma menina de 18?Já contei tudo para sua mulher e sugeri que viéssemos até aqui para a confirmação. Como você vê, ela concordou.
- Para que essa violência, este revolver? Adelaide, por que você não fala nada?
- Ela não tem que falar. E, como Laura nunca me disse nada sobre seus namorados, investiguei bem e tenho as evidências. Sei até que você e ela passaram uma noite juntos, neste apartamento. Vamos, confirme tudo.Agora! Na frente de sua mulher.


***
- Tem uma moça aqui embaixo querendo falar com o senhor. A Laura.
- Pode mandar subir.
- Preciso que o senhor me ajude.Meti-me em encrenca. Estou grávida.Tentei conversar com meu namorado sobre o que fazer e ele disse que isso não é problema dele. Meu irmão não pode saber de nada. Do jeito que é, vai me expulsar de casa.Para piorar a situação, discuti hoje com o português e fui demitida. Fiquei a tarde inteira zanzando pela praia, sem coragem de ir para casa de cabeça quente. Procurei a única amiga que tenho aqui em Santos, para ver se eu podia dormir lá, como fiz outras vezes, mas ela tinha ido viajar. Aí me lembrei de vir aqui. O senhor disse que sua mulher quase nunca vem, por isso acho que não vou causar nenhum problema. Posso dormir aqui? Amanhã vou embora bem cedinho.
- Pode. Fico na sala e você no quarto.


***
- Já que você trouxe a Adelaide, por que também não trouxe a Laura para esta conversa? Aí ficava tudo explicado.
- Ela não pôde vir. Nunca mais vai poder ir para lugar nenhum. Ela morreu. Entendeu? Morreu! O médico disse que foi hemorragia , causada por uma tentativa de aborto. Foi então que resolvi descobrir o cara que a engravidou e  acabar com sua raça. Uma bala na cara do safado, pensei. Depois, quando soube que era você , mudei de idéia. Por que estragar minha vida com isso? Descobri que poderia estragar a sua, sem acabar com ela.E é o que estou fazendo agora. Quanto à senhora, é sua vez de se entender com ele.


***
- Já que ele foi embora,Adelaide, posso explicar tudo?
- Não.

terça-feira, 20 de maio de 2008

SETE BILHETES



Assim que entrou na sala da casa, de regresso do hospital, onde a patroa , Dona Bia, acabara de ser internada, vítima de crise nervosa, a empregada viu alguns papéis sobre a mesinha de centro. Ao lado, um envelope amarelo, grande. Não reparara neles quando chegara por volta das 8 horas desta manhã, pois tivera de socorrer Dona Bia, encontrada semidesfalecida no quarto. Mal tivera tempo de ligar para pedir ajuda à irmã da patroa, residente a uma quadra dali, e que possuía automóvel.
Agora, precisava colocar a casa em ordem. Quando saíra para sua folga semanal, na tarde de sábado, achara a patroa um pouco esquisita, mas, também, pudera: fazia duas semanas que perdera o marido, assassinado por assaltantes Mas não esperava encontrá-la em estado tão deplorável nesta manhã de segunda., a ponto de precisar levá-la ao hospital.
Notou que os papéis sobre a mesinha de centro eram parecidos com bilhetes. O envelope não trazia chancela do Correio e tinha algumas frases escritas no verso. Inquiriu o porteiro pelo interfone:
- Você lembra quem deixou este envelope para minha patroa?
- Foi a secretária do falecido Dr. Miguel que me entregou esta manhã.Ela disse que não trouxe antes porque esperou a patroa voltar daquela viagem que fez após a morte do patrão. Eu mesmo entreguei o envelope pessoalmente para Dona Bia e ela parecia estar bem.
Dona Isis, a secretária, costumava trazer papéis do escritório de advocacia do patrão, por isso era conhecida dos porteiros.
Os fatos da noite em que o Dr. Miguel morreu deram a bilhetes um significado especial naquela casa. A empregada não resistiu à tentação de ler os que estavam na mesinha de centro.

Primeiro

Escrito em papel de caderno escolar ,não parecia bem um bilhete. Era mais uma troca de mensagens entre duas garotas: "Jéssica, você tem alguma coisa com o Edu?/ Não, já acabou faz tempo./ Tem certeza? Não quero magoar você./
Tenho. Já esqueci o Edu./OK. Tá bom. Gosto muito de você, você sabe".
Segundo

“ Nossa lembrança de ...felizes em Pr...” O texto truncado estava redigido atrás de uma foto, rasgada ao meio e da qual sobrara apenas uma imagem inteira, de um jovem sorridente. A imagem extraviada deveria pertencer a uma mulher, visto ser feminina a mão, de longos dedos e unhas pintadas, rasgada à altura do pulso,pousada sobre o ombro direito do rapaz. Embaixo, mais fragmento de texto: ...” amor...embro...002”

Terceiro

“ Que bom se a gente tivesse sózinhos, né? Não dava pra despensar essa tua sobrinha?” , dizia, ferindo o vernáculo, o terceiro bilhete, escrito em um guardanapo, o texto borrado aqui e ali pelo que deveriam ser manchas de gordura ou bebida.

Quarto

Impresso de uma correspondência enviada por e-mail:"Corri para ver se alguém tinha enviado uma mensagem para mim. Corri, cansei e não encontrei nada.Tudo bem, não enviaram. Mas eu continuo insistindo. Envio várias mensagens. Pensei muito em você, como sempre. Isso não é novidade" .

Quinto

Na folha arrancada de uma agenda: “ Miguel, aí estão os quatro bilhetes. Um eu achei atrás da igreja; o outro, no lixo do meu prédio e o terceiro, o e-mail, na porta da Prefeitura. . A foto rasgada é de um primo meu, que a esqueceu em minha casa no dia que rompeu com a namorada.. Acho que, agora, juntando aquele que lhe dei, encontrado no ponto do ônibus - o do papel com coraçõezinhos vermelhos - já dá para tocar seu plano maluco. Sei que é meio estranha esta minha mania de colecionar bilhetes que acho por aí, porém, mais esquisita, ainda, e essa sua idéia de usar alguns deles em um projeto literário. O que vai escrever? Um romance, um conto, um ensaio? Que tipo de ligação vai fazer com bilhetes tão diferentes, de procedências tão distintas? Em todo caso, você é que está com a mania de escritor, deve saber o que está fazendo. Um abraço do Jair.”

Sexto




Escrito no próprio envelope amarelo. Letra do Dr. Miguel, a empregada a conhecia bem. Endereçado à secretária dele:” Dona Isis, por favor guarde consigo este envelope e me entrega na segunda-feira. Não deixe no escritório porque são coisas pessoais. Um abraço e um bom fim de semana”.

Sétimo

O sétimo bilhete, o dos coraçõezinhos vermelhos, não fazia parte do conteúdo do envelope amarelo. Estava na lembrança da empregada, que o lera na manhã seguinte à noite em que o patrão fora morto.Dizia: “ Quando é que você vai arranjar um tempo para nós dois? Estou morrendo de saudades. Inventa alguma história para a bruxa da sua mulher, ela é burra, vai acreditar”.
O bilhete fora encontrado pela patroa no bolso de um paletó e a deixara furiosa, a ponto de não permitir ao marido entrar em casa à noite. Ele não pôde, sequer, falar com ela pelo interfone ou celular. Perambulando , quem sabe a caminho de algum hotel , o Dr. Miguel foi assassinado por dois assaltantes em uma dessas esquinas escuras da cidade.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

O HOMEM E O MENINO



- Moço, o senhor poderia arranjar um dinheiro para eu voltar pra minha casa?
Interpelado em meio ao vaivém de milhares de pessoas rumo ao local do desfile de bandas, o homem parou. O garoto deveria ter entre 8 e 10 anos. Vestia-se de maneira modesta- bermuda, camiseta, tênis- mas não estava sujo. Cabelos aparados, unhas limpas.
- Onde é sua casa?
- Em São Bernardo.
- Como é que veio parar aqui? Onde estão seus pais?
- Vim com meu irmão, ver o desfile das bandas. A gente se perdeu um do outro.Estou andando por aí há um tempão para ver se acho ele, mas não adianta. Queria ir pra casa.
- Seus pais sabem que vocês estão aqui?
- Não. A gente ia voltar hoje mesmo.
- Vem comigo.
- E dirigiram-se até um posto volante da polícia militar, perto da praça. O homem explicou o caso a um soldado.
- Podemos tentar localizar o irmão dele usando o serviço de som do palanque oficial- explicou o guarda
E foi o que fez, durante uma hora, sem resultado.
- Que outra coisa a gente podia fazer? Indagou o homem preocupado com o horário. Esperavam-no em casa.
- Tentaremos avisar os pais do garoto, mas não sei como vai ser isso, pois eles não têm telefone e o menino não conhece ninguém que tenha. A saída é pedir para a PM de São Bernardo ir para a casa dele avisar . Isso vai demorar. O senhor sabe ,estamos no carnaval.
Toda a polícia mobilizada para muitas coisas.
- E enquanto essa situação não se resolve, o que ocorre com o garoto?
- Fica aqui com a gente.
- Mas isso pode durar a noite toda.
- Não podemos fazer mais nada.
- E se eu levar o garoto para a minha casa? Deixo minha identificação, telefone e endereço com vocês. Uma viatura pode nos acompanhar até lá . Moro aqui perto.
Por que fez a proposta, não soube responder. A verdade é que o menino despertara-lhe algumas emoções. Lembrava outro garoto pobre- ele mesmo- de um bairro de Cubatão, a 12 quilômetros dali, que sonhava também em ver o carnaval nas praias de Santos.Mas nunca tivera a coragem de fazê-lo, quem sabe por falta de um irmão mais velho que o escoltasse na aventura.
Sim, aquele menino era um pouco ele, na aparência de pobreza decente; na inocência de confiar em desconhecidos. Possívelmente, como ele, cresceria, estudaria com sacrifício, viraria engenheiro, arranjaria um bom emprego. Talvez se casasse também com uma moça de família rica...
Tal reflexão fez com que hesitasse, por instantes, no propósito de levá-lo para casa. Mas, com os diabos, não podia deixá-lo , talvez a noite toda, na praça com policiais atarefados, ligados em tudo,menos em um menino perdido.
E foram. O homem e o menino para a casa do homem.

- Por que demorou tanto?
A ansiedade da mulher fez com que não reparasse na presença do garoto.
- Deixa entrar que já explico.
Mal acabara a explicação e ela interrompeu, quase aos gritos:
- Ficou doido? Trazer um moleque desconhecido para casa; expor desse jeito e mim e meus filhos?
- Espera um pouco, é só um garotinho. Quando a polícia localizar os pais dele, telefona e o problema está resolvido.
-E esse irmão dele. Quem é? Você não tem ouvido falar em menores delinqüentes?
- Calma! Não assusta o menino! Ele não é o que você está pensando.
- Como é que vou saber? Por que não o deixou com a polícia? Já não tinha feito a sua parte, levando-o até a viatura?
- Não podia deixar um garoto dessa idade a noite toda na praça. Eu me imaginei na situação dele.
- Tinha de ser! Você tinha de ter uma recaída da infância! Do tempo de Cubatão, pobrezinho. Viu o garoto e começou a ter pena de si mesmo. É aquilo que sempre falo: você melhorou de vida, saiu da favela, mas a favela não saiu de você. E, como se não bastasse, quer trazê-la para dentro de casa.
- Você está exagerando.
- Não estou exagerando nada. Vou ligar para meu pai vir me pegar e às crianças.Se você insiste em manter o garoto em casa, nós saímos.
Falavam alto e nem percebiam a presença do menino. Somente quando ela calou-se e dirigiu-se ao telefone, ouviu-se o fio de voz, hesitante:
- Pode deixar que eu vou embora.
E saiu pela porta que haviam esquecido de fechar. O homem atrás. Caminharam alguns minutos em silêncio, quebrado pelo homem:
- Espera aí. Vou pegar o carro e levar você para casa.
E foram. Menino e o homem, par a casa do menino.

Em menos de uma hora, estavam em São Bernardo. O irmão mais velho já havia chegado à moradia humilde da periferia, narrado a aventura e participado o sumiço do irmão.Os pais, antes preocupados, ao virem os dois, sentiram alívio. Prometeram ao homem não punir os filhos.
- São apenas crianças. O susto já foi castigo suficiente.
Tudo resolvido, tomou o caminho de volta.Antes de sair da cidade e pegar a Via Anchieta, parou em um bar. Raramente consumia bebida alcoólica, porém a ocasião pedia uma latinha de cerveja. Relaxar? Comemorar? Ficou ali, no balcão, refletindo.
Acudir o garoto, levando-o de volta para casa, como que socorrendo a si mesmo, 30 anos atrás, deixara-o satisfeito. Afrontar a mulher, abandonando-a irritada no meio da sala - atitudes que jamais tomara antes- deixaram-no apreensivo. Por que agira assim? Só por que o garoto lembrava a criança que fora? Ou porque ainda não liberara a favela dentro de si, como sempre recordava a mulher? Um herói que provara solidariedade e apreço às origens, ou o irresponsável que expusera a família à sanha de delinquentes mirins?Com muitas perguntas e nenhuma resposta, o homem era um menino perdido.